quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Poema "A Lição", de Charles Tomlinson

A LIÇÃO
Este ano, as cotovias
voam tão cedo e tão alto,
significando, dizes, que este Verão
vai ser quente e seco,
e quem sou eu para discutir tal profecia?
Vinte anos aqui passados ainda não
me ensinaram a ler com precisão
nem os sinais do tempo nem os sinais do céu:
continuo com o olhar de um recém-chegado,
um olhar citadino:
contudo há ainda tempo
para aprender mais coisas
sobre a estação e o canto:
Verão após Verão.

Poemas, Charles Tomlinson
(trad. Gualter Cunha)

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier


«Consideraram-nos como agitadores: cientistas, pensadores, sociólogos, artistas. Lá fora – no universo – assistia-se, paralelamente, às conquistas e à devastação de uma revolução técnica de que não poderia deixar de surgir, na hora fatídica, a conclusão filosófica: essa revolução das consciências que nos espera. Ora, técnica e consciência são as duas alavancas da arquitectura, nas quais se apoia a arte de construir. Assistiu-se à fractura, à derrocada de valores seculares, milenares. As velocidades mecânicas difundiam em todos os pontos do território uma nova informação. Uma vez violadas certas relações naturais, o homem viu-se de certo modo desnaturalizado, abandonou as suas vias tradicionais, perdeu pé, acumulou horrores por todo o lado, fruto da sua desqualificação: nas casas, nas ruas, nas cidades, nos subúrbios, nos campos. Um espaço edificado novo e invasor, imundo, burlesco, boçal, nefasto e feio, conspurcou paisagens, cidades e corações. Ultrapassaram-se os piores limites, consumou-se a catástrofe. O homem destes cem anos indestrinçavelmente sublimes e ignóbeis juncou o solo com os detritos da sua acção. A arquitectura está moribunda, viva a arquitectura!»

Conversa com os estudantes das escolas de arquitectura, Le Corbusier  (trad. António Gonçalves)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Luz e as Trevas, da Odisseia à Ilíada:






















ODISSEIA DE HOMERO
«O sol lançou-se no céu de bronze, deixando
a bela superfície da água, para dar luz aos imortais
e aos homens na terra dadora de cereais.
Chegaram a Pilos, a cidade bem fundada de Neleu.
Na praia ofereciam-se sacrifícios sagrados de negros touros
a Posídon de azuis cabelos, que abala a terra.
Havia nove bancadas de quinhentos homens sentados;
à frente de cada uma estavam nove touros para o sacrifício.
Foi depois de terem provado as vísceras e terem assado
as coxas para o deus que os outros aportaram à margem,
descendo e dobrando a vela da nau redonda.
Fundearam-na e desembarcaram na praia.
Da nau desembarcou Telémaco, com Atena à sua frente.»
............................................................................................
ILÍADA DE HOMERO
«Quando chegaram ao mesmo sítio para se enfrentarem uns aos outros,
brandiram todos juntos os escudos, as lanças e a fúria de homens
de brônzeas couraças; e os escudos cravados de adornos
embateram uns contra os outros e surgiu um estrépito tremendo.
Então se ouviu o gemido e o grito triunfal dos homens
que matavam e eram mortos. A terra ficou alagada de sangue.Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas,
atirando juntos o enorme caudal para a embocadura de dois vales,
e das poderosas nascentes vêm lançar as águas num oco desfiladeiro,
e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo — assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros.»

Traduções de Frederico Lourenço
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Frederico Lourenço nasceu em Lisboa, em 1963, e é autor de uma obra que abrange o romance, a poesia e o ensaio. Distinguiu-se igualmente pela tradução de textos clássicos, desde Homero e outros poetas gregos a Goethe e Schiller. Tendo feito a sua formação académica na Universidade de Lisboa, é desde 2009 professor associado da Universidade de Coimbra, em cuja Faculdade de Letras lecciona várias disciplinas no âmbito dos Estudos Clássicos e dos Estudos Artísticos.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset


«O misticismo tende a explorar a profundidade e especula com o abismático; pelo menos, entusiasma-se com as profundidades, sente-se atraído por elas. Pois bem, a tendência da filosofia é de direcção oposta. Não lhe interessa submergir-se no profundo, como a mística, mas, pelo contrário, emergir do profundo até à superfície. Contra o que é costume supor-se, é a filosofia um gigantesco anseio de superfície, quero dizer de trazer para a superfície e tornar patente, claro, evidente se é possível, o que estava subterrâneo, misterioso e latente. Detesta o mistério e os gestos melodramáticos do iniciado, do mistagogo. Pode dizer de si própria o que disse Goethe:

Declaro-me da linhagem desses
que do escuro rumo ao claro aspiram.


A filosofia é um enorme apetite de transparência e uma resoluta vontade de meio-dia. O seu propósito radical é trazer para a superfície, declarar, descobrir o oculto ou velado — na Grécia a filosofia começou por chamar-se alétheia, que significa desocultação, revelação ou desvelação; em suma, manifestação. E manifestar não é senão falar, logos. Se o misticismo é calar, filosofar é dizer: descobrir na grande nudez e transparência da palavra o ser das coisas, dizer o ser — ontologia. Frente ao misticismo, a filosofia gostaria de ser o segredo aos gritos.»


O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset
(trad. José Bento)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade

SONHO DE UM SONHO
Sonhei que estava sonhando
e que no meu sonho havia
um outro sonho esculpido.
Os três sonhos superpostos
dir-se-iam apenas elos
de uma infindável cadeia
de mitos organizados
em derredor de um pobre eu.
Eu que, mal de mim! sonhava.
Sonhava que no meu sonho
retinha uma zona lúcida
para concretar o fluido
como abstrair o maciço.
Sonhava que estava alerta,
e mais do que alerta, lúdico,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
vinha cingir-me e dourar-me
para todo o sempre, para
um sempre que ambicionava
mas de todo o ser temia…
Ai de mim! que mal sonhava.
Sonhei que os entes cativos
dessa livre disciplina
plenamente floresciam
permutando no universo
uma dileta substância
e um desejo apaziguado
de ser um com ser milhares,
pois o centro era eu de tudo,
como era cada um dos raios
desfechados para longe,
alcançando além da terra
ignota região lunar,
na perturbadora rota
que antigos não palmilharam
mas ficou traçada em branco
nos mais velhos portulanos
e no pó dos marinheiros
afogados em mar alto.
Sonhei que meu sonho vinha
como a realidade mesma.
Sonhei que o sonho se forma
não do que desejaríamos
ou de quanto silenciamos
em meio a ervas crescidas,
mas do que vigia e fulge
em cada ardente palavra
proferida sem malícia,
aberta como uma flor
se entreabre: radiosamente.
Sonhei que o sonho existia
não dentro, fora de nós,
e era tocá-lo e colhê-lo,
e sem demora sorvê-lo,
gastá-lo sem vão receio
de que um dia se gastara.

in Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Satyricon, de Petrónio


«— Sócrates, o mais sábio dos mortais, na opinião unânime de homens e deuses, costumava gloriar-se de nunca ter remirado o interior de uma taberna nem demorado os olhos nalguma reunião formada por gente a mais. Até esta altura, nada se revelou tão recomendável como discorrer sempre com sabedoria…
— Tudo isso é verdade; — concedi — e pessoa alguma deverá atrair mais depressa a má sorte do que os que andam a cobiçar o alheio. De que iriam viver os vagabundos e os gatunos, se não lançassem para o meio da multidão, como engodo, caixinhas e saquinhos onde tilinta o barulho do dinheiro? Tal como os animais sem fala se deixam atrair pelo cevo, também os homens se não deixariam apanhar se não picassem o isco da esperança.»

Satyricon, de Petrónio
(trad. Delfim F. Leão)

Fellini-Satyricon (1969), Federico Fellini

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Alguns Poemas, de Francis Ponge

Ainda o Sol, por Francis Ponge:
 Vincent van Gogh, 1889
«Que o sol brilhe ao alto e à esquerda na primeira página deste livro, é normal.
Brilhante sol! Primeiro, exclamação de alegria, – responde-lhe a aclamação do mundo (mesmo através das lágrimas, porque é graças a ele que elas brilham).
Há razão para crer (curiosa expressão), que estamos no interior do sol; ou pelo menos no interior do sistema do seu poder e do seu amor.
O dia é a polpa de um fruto cujo caroço seria o sol. E nós, afogados nessa polpa como as suas imperfeições, as suas manchas, pedras grosseiras no interior do mármore: seus 'sapos', nós somos assimétricos em relação ao seu centro. A sua irradiação envolve-nos e atravessa-nos, vai brincar muito para além de nós.
A noite é o espectáculo, a consideração; mas o dia a prisão, os trabalhos forçados do azul.
Este astro é o próprio orgulho. O único caso de orgulho justificado.
Satisfação com quê? Satisfação consigo, dominação de tudo.
A todo o criado, ele ilumina-o, aquece-o, recreia-o.
"O sol dissipa a nuvem, recreia e depois penetra enfim o cavaleiro. E nem usou todo o seu poder..." (La Fontaine, Poebus et Borée.)»

Alguns Poemas, de Francis Ponge
(trad. Manuel Gusmão)

terça-feira, 19 de julho de 2016

O Cónego, de A. M. Pires Cabral



«NESSA NOITE, ANTES DE DORMIR, e como o sono me fizesse negaças, reflecti um pouco sobre o ponto em que me encontrava. A impressão que tinha era a de que estava como um cego abandonado sem cão e sem bengala num lugar desconhecido.
Na verdade, sentia-me cada vez mais incapaz de atingir a verdade. As contradições entre testemunhos eram tão numerosas e em pontos tão decisivos, as interpretações dos mesmos factos pelos diferentes informadores tão díspares, que parecia que estavam a contar histórias diferentes sobre personagens diferentes. A verdade tornava-se assim um desiderato remoto, cada vez mais difícil de alcançar.
Para piorar as coisas, às vezes sentia que se instalava em mim uma progressiva aversão pela história do Cónego. Que ele tinha marcado a vida de muita gente, isso tinha, incluindo a de todos aqueles com quem eu conversara já e certamente a de muitos mais. De que maneira a marcara, conseguia eu ir descortinando nos testemunhos que me iam dando dele, nas próprias inflexões da voz — amistosa ou subtilmente hostil — com que falavam. Mas valeria a pena ir além disso? Que me importava a mim, afinal, que o Cónego tivesse sido um santo ou um pecador, um sonhador ou um oportunista, um liberal ou um unhas-de-fome? Que tivesse sido generoso ou egoísta, sincero ou hipócrita, um homem notável pelas virtudes ou um canalha da pior espécie? Um sábio ou um ignorante? Um cínico ou um ingénuo? Claro que sentia o apelo da classe a influenciar-me os juízos: o Cónego era um dos meus. E o padre Agostinho, cuja versão exaltava as virtudes do Cónego e silenciava (ou relativizava) os defeitos, também era um dos meus. Mas sentia igualmente que não podia nem devia permitir que um preconceito corporativo me obstruísse com pedregulhos inamovíveis o caminho para a verdade.
Mas o que de facto me apetecia era pôr uma pedra definitiva sobre o assunto. Simplesmente era tarde. Envolvera-me de tal maneira que as próprias pessoas continuariam a carrear para mim, fragmento a fragmento, as suas versões da história, mesmo sem eu lho pedir. Achava-me condenado, como um grilheta, a continuar a fossar naquele húmus malsão. Ou, como um Sísifo esgrouviado, a rolar incessantemente monte acima um calhau que cada novo testemunho fazia recuar até ao sopé.»

O Cónego, A. M. Pires Cabral

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Alguns Poemas, de Francis Ponge

O SOL INTITULA A NATUREZA
«O sol de certa forma intitula a natureza. Eis de que forma.
Durante a noite aproxima-se dela por debaixo. Depois aparece no horizonte do texto, incorporando-se por instantes na sua primeira linha, da qual aliás logo se desliga. E há aí um momento sangrento.
Erguendo-se pouco a pouco, atinge então no zénite a situação exacta de título, e tudo então fica justo, tudo se refere a ele segundo raios iguais em intensidade e em extensão.
Mas a partir daí, ele declina pouco a pouco, em direcção ao ângulo inferior direito da página, e quando transpõe a última linha, para voltar a mergulhar na obscuridade e no silêncio, há um novo momento sangrento.
Rapidamente então a sombra cresce pelo texto que em breve deixa de ser legível.
É então que o 'brado' nocturno 'da indignação' ressoa.»

Alguns Poemas, de Francis Ponge
(trad. Manuel Gusmão)


sexta-feira, 15 de julho de 2016

O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset


«O burguês quer instalar-se comodamente no mundo e para isso intervir nele, modificando-o a seu gosto. Por isso a época burguesa honra-se sobretudo pelo triunfo do industrialismo e, em geral, das técnicas úteis para a vida, como a medicina, a economia, a administração. A física alcançou um prestígio sem par porque dela emanava a máquina e a medicina. As massas interessaram-se por ela não por curiosidade intelectual, mas por interesse material. Em tal atmosfera produziu-se o que poderíamos chamar o "imperialismo da física".

Para nós, nascidos e educados numa época que participa deste modo de sentir, parece-nos uma coisa muito natural, a mais natural e discreta, que, entre os modos de conhecimento, se conceda a primazia ao que, seja qual for como teoria, nos proporcione o domínio prático sobre a matéria. Mas, embora nascidos e educados naquela época, um ciclo novo começa em nós, dado que já não nos contentamos com esse primeiro ímpeto que nos faz ver tão natural a utilização prática como norma da verdade. Pelo contrário, começamos a apercebermo-nos de que esse empenho de dominar a matéria e torná-la conveniente, de que esse entusiasmo pelo 'comfort' é, se se faz dele um princípio, tão discutível como qualquer outro. E, postos em alerta por esta suspeita, começamos a ver que o 'comfort' é simplesmente uma predilecção subjectiva — dito grosso modo, um capricho — que a humanidade ocidental tem desde há duzentos anos, mas que, por si só, não revela nenhuma superioridade de carácter.»


O que é a Filosofia?, de José Ortega y Gasset
(trad. José Bento)


terça-feira, 12 de julho de 2016

sexta-feira, 8 de julho de 2016

A realidade do artista, de Mark Rothko


«Muitas vezes descreve-se a arte como uma maneira de fugir à acção. Sublinha-se que os artistas, considerando demasiado incómodas as coisas práticas do mundo, se retiram do domínio da verdadeira actividade e se escondem num universo de imaginação para se livrarem desses incómodos. Habitualmente, considera-se que o universo da verdadeira actividade é aquele em que o homem se ocupa — seja em comunidade, seja individualmente — da satisfação das suas próprias necessidades físicas. Enganar a fome ou o desconforto físico é próprio do universo da acção realista. Com a melhoria do nível de vida, aumentou muitíssimo a quantidade de coisas que satisfazem as necessidades físicas do homem. Originalmente, essas necessidades seriam: comida suficiente para aplacar a fome, um abrigo de protecção contra as inclemências meteorológicas, e roupa para afastar as pneumonias. Hoje, porém, um homem não pode viver sem casa de banho com mosaicos, sem instalação sanitária, aspirador ou um fato de bom corte; e uma mulher não passa sem as inúmeras mudanças de vestuário no princípio e no fim da estação, nem sem os incontáveis aparelhos e instrumentos que ajudam a poupar tempo. Estes instrumentos para poupar tempo contribuem supostamente para o lazer, que deve ser preenchido satisfazendo os impulsos estéticos. E o lazer reclama os seus ornamentos; e, em primeiro lugar, tem que ser atractivo. Por último, participar na produção e na distribuição destes incontáveis dispositivos é algo que se vem gradualmente incorporando na esfera das necessidades reais do homem, que originalmente se saciavam com a mais elementar provisão de alimentos, roupa e abrigo. Quem passar a vida a produzir ou adquirir os referidos enfeites pertencentes às necessidades físicas, leva uma vida activa. (...)
Still LIfe with Bread and Fruit, de Marsden Hartley
Isto pressupõe, claramente, serem as necessidades físicas o centro da existência, e que outras necessidades, se existirem, estarão automaticamente satisfeitas. Tal assunção é contrariada pelo facto de a saúde ser pior nas classes sociais que podem adquirir estes bens facilmente. Não existe no mundo classe tão atacada por distúrbios neurológicos, os chamados distúrbios imaginários, que a ciência recentemente descobriu serem muitas vezes mais destrutivos e menos curáveis do que as doenças ‘reais’, consideradas legítimas. A classe subordinada, que presumivelmente se dispõe a abdicar da sua própria vida para que todos esses itens necessários fiquem mais disponíveis para toda a sociedade, é uma classe muito mais sã. Porquê? Porque são pessoas que, pelo simples facto de serem idealistas, estão realmente a satisfazer uma necessidade tão grande quanto o são as necessidades físicas. Aqui, o idealismo conduz a um tipo de acção que ocorre a par de outras formas de acção auto expressivas, sem as quais o homem não consegue manter-se de boa saúde.
A arte é uma dessas acções. É um tipo de acção parente do idealismo. São ambos expressões de um mesmo impulso, e quem não consegue satisfazer esse ímpeto de uma ou outra maneira é tão culpado de escapismo quanto quem não consegue
ocupar-se a satisfazer as suas próprias necessidades físicas. Na verdade, aquele que passar a vida inteira a fazer girar as rodas da indústria a ponto de não lhe sobrar tempo, nem energia, para se ocupar de quaisquer das outras necessidades do seu organismo humano é, de longe, mais escapista do que quem
desenvolveu a sua própria arte. Pois aquele que desenvolve uma arte própria ajusta-se forçosamente às suas necessidades físicas e compreende que temos que ter pão para viver — enquanto o outro não compreende que não podemos viver apenas de pão.»

A realidade do artista, de Mark Rothko
(trad. Fernanda Mira Barros)

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Escritos sobre arte, de Paul Klee


«Permitam-me que use uma metáfora, a metáfora da árvore. O artista tem-se ocupado deste mundo multiforme e, supomos nós, encontrou um caminho mais ou menos próprio, quase em segredo. Está tão bem orientado, que é capaz de ordenar o fluxo dos fenómenos e das experiências. Gostaria de comparar esta orientação nas coisas da natureza e da vida, esta ordem com tantos braços e ramificações, às raízes da árvore. É daí que aflui a seiva ao artista, passando por ele e pelos seus olhos. E, assim, ele ocupa o lugar do tronco.
Incitado e movido pela força daquele fluxo, encaminha os resultados da sua observação para a obra. E assim como a copa da árvore se expande no tempo e no espaço em várias direcções, o mesmo acontece com a obra.

Ninguém se lembra de exigir a uma árvore que forme a sua copa à semelhança das raízes. Todos compreenderão que o que está em cima não pode ser um reflexo exacto do que está em baixo. É evidente que das diferentes funções nas diferentes áreas elementares têm de resultar caminhos marcadamente divergentes. Mas é precisamente ao artista que, por vezes, se proíbe tais divergências em relação aos modelos que, no entanto, são importantes do ponto de vista da criação. O zelo levou até alguns a acusá-lo de incapacidade e de adulteração propositada. E, afinal, ele mais não faz, no lugar que lhe foi atribuído no tronco, do que juntar e transmitir o que vem das profundezas . Não é servo nem senhor, é simplesmente um mediador.

O artista ocupa, assim, uma posição bem modesta. E não reivindica para si a beleza da copa, ela passa simplesmente por ele.»

O Sacrifício (1986), Andrei Tarkovsky
Escritos sobre arte, de Paul Klee (trad. Catarina Pires e Marta Manuel, com revisão de João Barrento)

quarta-feira, 29 de junho de 2016

A Prática da Arte, de Antoni Tàpies


«A contemplação de um quadro, como ouvir música ou ler poesia, não nos exige forçosamente uma análise intelectiva das obras. O espectador já faz bastante ao consentir o impacto, ainda que de forma confusa, que a obra faz ecoar no seu espírito. A arte actua sobre toda a nossa sensibilidade e não exclusivamente sobre a inteligência.
O sentido de uma obra baseia-se sempre na possível colaboração com o espectador. Apoia-se sempre no espírito mais ou menos trabalhado daquele que a contempla. Um homem vazio de imagens, sem imaginação e sem a sensibilidade necessária para que se desencadeiem no seu interior associações de ideias e de sentimentos, não verá nada.»

A Prática da Arte, de Antoni Tàpies
(trad. Artur Guerra)

National Gallery (2014), Frederick Wiseman

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Ornamento e crime, de Adolf Loos


«Não, não, o ser humano não é uma besta. As bestas amam — amam de um modo simples e como a natureza determina. Porém, o Homem maltrata a sua natureza e a natureza maltrata o Eros que há em si. Nós somos bestas — bestas que foram encurraladas; bestas a quem é negado o alimento; bestas que têm de amar por decreto. Somos animais domésticos. Se o Homem tivesse permanecido besta, o amor só entraria no seu coração uma vez por ano. Porém, a volúpia reprimida a custo faz-nos estar permanentemente predispostos para o amor. Fomos traídos pela Primavera. Essa volúpia não é simples, mas complexa; não é natural, mas 'anti natura'.

Esta volúpia pouco natural surge de forma diferente em todos os séculos, em todas as décadas, até. Ela anda no ar e tem um efeito contagiante. Não tarda em propagar-se como uma praga que não se consegue evitar; logo se espalha por todo o lado como uma epidemia secreta e as pessoas que forem acometidas por ela sabem escondê-la umas das outras. Os flagelantes não tardarão a percorrer o mundo e as piras transformar-se-ão em festas populares; a sensualidade não tardará em recolher-se nos recantos mais secretos da nossa alma.»
Ornamento e crime, de Adolf Loos
(trad. Lino Marques)


quinta-feira, 23 de junho de 2016

Memorial de Aires, de Machado de Assis

«Papel, amigo papel, não recolhas tudo o que escrever esta pena vadia. Querendo servir-me, acabarás desservindo-me, porque se acontecer que eu me vá desta vida, semtempo de te reduzir a cinzas, os que me lerem depois da missa de sétimo dia, ou antes, ou ainda antes do enterro, podem cuidar que te confio cuidados de amor.
Não, papel. Quando sentires que insisto nessa nota, esquiva-te da minha mesa, e foge. A janela aberta te mostrará um pouco de telhado, entre a rua e o céu, e ali ou acolá acharás descanso. Comigo, o mais que podes achar é esquecimento, que é muito, mas não é tudo; primeiro que ele chegue, virá a troça dos malévolos ou simplesmente vadios.
Escuta, papel. O que naquela dama Fidélia me atrai é principalmente certa feição de espírito, algo parecida com o sorriso fugitivo, que já lhe vi algumas vezes. Quero estudá-la se tiver ocasião. Tempo sobra-me, mas tu sabes que é ainda pouco para mim mesmo, para o meu criado José, e para ti, se tenho vagar e quê, — e pouco mais.»


Memorial de Aires, de Machado de Assis

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Guerra Junqueiro: A musa dual - antologia

[A arte]
«A arte, quando grande, é religiosa e panteísta. Sente infinito, exprime infinito, sugere infinito. Universaliza indivíduos, evapora números, eterniza momentos. Chega à unidade, toca na essência. Eucaristia sublime, mistério esplêndido, inefável! Deus a cantar no som, a brilhar na cor, a desenhar-se nas formas! Sim! a arte é Divindade, encarnando em música.»

Guerra Junqueiro: A musa dual - antologia (introdução, selecção de textos e organização de A. M. Pires Cabral)




terça-feira, 21 de junho de 2016

Sonetos, de Florbela Espanca

A UM LIVRO
No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.
Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!
Leio-o e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu e salma
As orações que choro e rio e canto!…
Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!… Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!…

in Sonetos, de Florbela Espanca


quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf


«Baixa, morena, de olhos fogosos, com uma pena de faisão no chapéu, Mrs. Jarvis era precisamente o tipo de mulher susceptível de perder a fé nos moors – ou seja, de confundir Deus com o universal –, mas não perdeu a fé, nem deixou o marido, nunca acabou de ler o poema e continuou a passear nos moors, a contemplar a lua por entre os olmos e a sentir, quando se sentava na espessa relva ao alto de Scarborough… Sim, sim, quando é largo o voo da cotovia; quando as ovelhas, dando um passo ou dois, arrancam o pasto e ao mesmo tempo fazem tinir os sinos que trazem ao pescoço; quando uma brisa começa a soprar e depois morre deixando um beijo no rosto; quando no mar lá em baixo os navios parecem cruzar-se e passam como que puxados por uma mão invisível; quando no ar se ouvem distantes concussões e cavaleiros fantasmas galopam e estacam; quando o horizonte líquido é azul, verde, emocional – então Mrs. Jarvis suspira e pensa para consigo “Se alguém me pudesse dar… se eu pudesse dar a alguém…”. Mas não sabe o que quer dar, nem quem dar-lho poderia.»

O Quarto de Jacob, de Virginia Woolf (trad. Maria Teresa Guerreiro)
Capa da primeira edição, de 1922,
ilustrada pela irmã de Virginia Woolf, Vanessa Bell

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Cassandra, de Christa Wolf, no Jornal de Letras


«Enone, que Páris tinha trazido dos montes e que todos na cozinha adoravam, parecia abatida. Servia à mesa, tinham-lhe destinado o par real e o hóspede, e eu percebi que ela se obrigava a sorrir. No corredor apanhei-a quando bebia de um trago uma taça de vinho. Os tremores já tinham começado a manifestar-se em mim, mas ainda conseguia reprimi-los. Não liguei nada às personalidades que se apertavam à nossa volta, e perguntei a Enone o que tinha. O vinho e os cuidados tinham afastado a sua timidez em relação a mim. Páris estava doente, disse com os lábios lívidos, e nenhuma das suas mezinhas ajudava. Enone, que, segundo a criadagem, tinha sido uma ninfa de água na outra vida, conhecia todas as plantas e os seus efeitos no organismo humano, quase todos os doentes no palácio iam ter com ela. Mas a doença de Páris não a conhecia, e metia-lhe medo. Ele amava-a, disso tinha sinais iniludíveis. Mas quando o tinha nos braços ele chamava alto pelo nome de uma outra mulher: Helena, Helena. Afrodite ter-lha-ia prometido. Mas já alguma vez alguém tinha ouvido que Afrodite, a nossa querida deusa do amor, empurrasse um homem para uma mulher que ele não ama? Nem sequer conhece! E que só quer possuir porque ela passa por ser a mais bela de todas as mulheres? E porque possuindo-a ele se tornará o primeiro entre todos os homens?»

Cassandra, de Christa Wolf (trad. João Barrento)
Helena de Tróia (1898), de Evelyn De Morgan