terça-feira, 14 de novembro de 2017




Deve ter razão o Kenneth Goldsmith, poeta experimental e idealizador do fabuloso site UbuWeb, quando diz que o verdadeiro flâneur do século 21 não é mais, como no século 19 de Baudelaire, o sujeito que fica vadiando por ruas, avenidas, becos, portos, bares de sua cidade, disponível para uma rápida surpresa passante, mas sim o que vaga horas e horas pelas infovias da web. Na Colômbia passa horas flanando pelas noites brancas de São Petersburgo. No Rio de Janeiro, via Google maps, satélites, street view, observa gentes, lugares, filmes, canções, sites, lives, para um romance que se passa na Austrália, onde jamais pôs os pés.
Mas aquele dia, no centro do Rio de Janeiro, andando, com certo tempo livre, pela Rua México, na esquina com Santa Luzia, me deparo com aqueles olhos-que-vão-além da poeta Luiza Leite brotando enormes sobre uma tigela de cuscuz que tinha acabado de comprar num ambulante. Passamos semanas tentando combinar um encontro e nunca dava certo. Mas os deuses queriam que desse e ali estávamos, esbarrados, por coincidência. Subimos para a Cosmos, sala onde se elaboram hoje algumas das coisas mais criativas em termos de arte ativa. Lá vi o céu do Halley, vi o sal virando mar em cima de uma mesa, a linha reconhecível de Tatiana Podblubny tomando a parede de desenhos. Conversa foi, conversa veio. Ganhei da Luiza o belíssimo livro artesanal Como construir um modelo vivo, dela e da Tatiana, cuja versão eletrônica pode ser vista aqui:



Mas aí já era hora de correr pro MAM, Museu de Arte Moderna, pois precisava encontrar a artista plástica Carla Guagliardi que, como finalista do Prêmio Pipa deste ano, tem um trabalho ali exposto: “Fuga”. Uma linha escarlate que escapa de uma parede de concreto e atravessa tubos dourados fixados em blocos de cimento compondo uma espacialidade nova, uma hipótese espacial, o que me lembrou que quando dava aulas na Biblioteca Parque de Manguinhos, comunidade bastante carente da zona norte do Rio, uma das minhas grandes e gratas surpresas foi ouvir da aluna Eva (13 anos) que sua leitura preferida era a mitologia oriental, em especial a história segundo a qual uma linha escarlate presa ao nosso dedo mínimo nos une a uma outra pessoa em qualquer parte do mundo que, sem ser a outra metade da sua laranja, é o outro extremo da nossa linha escarlate. Um deslumbre essa fuga móvel e imóvel da Carla.




Saímos dali e, ainda na bela passarela que leva do MAM ao centrão, Carla foi me apontando detalhes da cidade que eu nunca tinha percebido. É impressionante passear ao lado de um artista plástico, que vai sempre vendo formas e diferenças onde a gente vê sempre o homogêneo. Uma das raras vezes em que lamentei não ter celular foi durante esse curto passeio, em que ela me mostrava como em meio a tantos bancos de pedra perfeitamente dispostos havia um em que uma pedra meio tombava sobre a outra, ou melhor, subia sobre a outra, e como era justamente ali que duas mulheres escolheram para sentar, ou uma faixa de trânsito que, na avenida Beira Mar, perde o rumo e sobe a calçada.

Além de ficar me mostrando todas essas formas mínimas ou máximas, mas sempre inesperadas, da cidade, Carla seguia me contando como acabou se tornando amiga de Stela do Patrocínio, na Colônia Juliano Moreira, e como acabou realizando as gravações que geraram o “livro de poemas” de Stela, que a tornou conhecida por um maior número de pessoas.
Um barato ouvir Carla falando que a voz de Stela trazia, invisível, porém mais nítida do que qualquer outra pessoa que conheceu, a própria e especial pontuação. “Dava para ouvir suas vírgulas, seus pontos finais ou de exclamação”.
Um poema de Stela:

É dito: pelo chão você não pode ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo
Pelas paredes você também não pode
Pelas camas você também não vai poder ficar
Pelo espaço vazio você também não vai poder ficar
Porque lugar de cabeça é na cabeça
Lugar de corpo é no corpo



[Na Wikipedia, a Colônia Juliano Moreira é assim descrita: “A Colônia Juliano Moreira é uma instituição criada em Jacarepaguá,em Taquara e Curicica,[1] na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, na primeira metade do século XX, destinada a abrigar aqueles classificados como anormais ou indesejáveis, tais quais doentes psiquiátricosalcoólatras e desviantes das mais diversas espécies. Hoje, a área da colônia também serve como residência para milhares de pessoas, além de abrigar o Museu Bispo do Rosário.”]

*


E ocorre que passando pela Biblioteca Nacional esbarramos numa bela concentração de artistas plásticos e interessados em artes plásticas (para mim a alegria maior, contudo, foi encontrar o amigo Deocleciano, aluno também lá da Biblioteca Parque de Manguinhos, que me disse que não perde uma palestra dos ciclos organizados pela Biblioteca Nacional, e a artista plástica ultra-jovem Maria de Laet, uma das que mais me faz pensar para além do pensável, se isso faz algum sentido). Todos estavam ali para assistir o debate sobre artes plásticas com Paulo Sérgio Duarte e Luisa Duarte. Vamos nessa.
Da fala de Paulo Sérgio Duarte, que não vou conseguir reproduzir aqui, recordo que me impressionou a passagem em que disse que via nos artistas de sua geração (Antonio Dias, Waltércio Caldas, Lygia Pape, Sérgio Camargo etc) uma enorme exigência reflexiva somada a uma impressionante contundência plástica, mas que na maior parte dos artistas atuais apesar de também enxergar essa contundência plástica, não via muita exigência reflexiva, que parecia ser substituída agora pelo “tema”, pelo “assunto”.

Mas com o perdão do grande Paulo, o que eu gostei mesmo de ouvir foi a Luisa dizendo que apesar de ter sido formada desde a infância nesse ambiente (Luisa é filha do Paulo), descobrir, aos 15 anos, Nan Goldin e Louise Bourgeois foi uma pequena revolução, um pequeno caminho empoeirado e à margem que foi dar em um outro universo. Só lembrei daquele texto de Bataille que dizia que todos vivemos tirando, todos os dias, poeira das coisas, das mesas, dos livros, e que no dia seguinte ela volta a aparecer ali, o que significa que um dia ela vai vencer.

Tive que sair pouco antes do fim do debate e saí com a cabeça tão sacudida por tudo o que vi e vivi nessas poucas horas de centro da Cidade que pensei que deveria ao menos anotar num papelzinho qualquer essas coisas, que acabaram, hoje, virando esta crônica para um blog que só um flâneur de internet vai ler. Que a escreva justo no dia em que, flanando também ao acaso, no centro da cidade, encontrei na Livraria Berinjela o poeta, irmão, amigo Ricardo Aleixo, que está no Rio de Janeiro para lançar seu potente ANTIBOI, faz muito sentido, pois esse encontro gerou outra caminhada pelo centro da cidade, junto com o grande em todos os sentidos Thadeus Santos, caminhada tão cheia de ideias e afetos que só mesmo reservando outra crônica para ela, porque essa aqui já foi.



Carlito Azevedo
(Poeta brasileiro, publicado pela Cotovia)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Mata-Borrão



Nasceu-me uma oliveira

E chegando, anunciou que se fizesse em mim a sua vontade. Nasceu-me então uma oliveira.
Por muito ter vivido, a memória tornou-se fragmentada, contudo, intensa e persistente.
Guardei as vagens negras de alfarroba, envernizadas e muito tristes, lágrimas de um jurássico não datado, roídas nas bocas das mulas, dos burros, dos cavalos, nas mós dos homens.
Guardei figos, como um pastor que não sai do seu lugar. Via o sol que os secava. Pingos de mel mirrados, servidos em bandeja no Olimpo. Deles se fazia queijo ou flores de pétalas recortadas e corolas resistentes, nem sempre amargas. Amêndoas essas transformadas em vapor no inferno do alambique, gota a gota. O cobre, ainda com restos de medronho, a cuspir águas ardentes.
Guardei a cal, lambida pelas osgas, que me vestia e nascia em fornos, na serra, onde havia javalis, raposas e coelhos.
Guardei a paciência das mulheres em cestos de empreita.
Guardei o sabor do xerém, comido a partir dos bordos do prato, salvando a língua do calor. O travo salgado do toucinho na manta aveludada da farinha de milho.
Guardei o medo dos lobisomens, amantes sazonais dos caprichos da lua. Aquele vizinho, afinal tão igual aos outros quando era dia.
Arrancaram-me as telhas, uma a uma. Ofereceram-nas, uma a uma também, aos turistas que, encantados, lhes pareceram muito típicas.


Maria João Forte é socióloga

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia


XIII: Um Mito de Origem


            Durante alguns meses, a impressão de isolamento foi quase total.
A vizinha do lado teve um sucesso qualquer na vida e mudou-se. Levou consigo um silêncio estudioso, uma realidade, dedirrósea cabeleira, os trajes de ginástica.
O outro apartamento que limitava com o dela não via inquilino desde a minha chegada. Apenas névoa, névoa e paredes.
O meu, de fundos, sempre por descrever, situado a uma das extremidades de um corredor insaciável de esquivas e cotovelos, como que perdia arredores com o passar do tempo, vogando perigosamente para o centro.
Um centro.
Os demais moradores do andar – por que não dizer do edifício inteiro? – resumiam-se a uma banal fantasmagoria de passos, portas batidas, ondeantes pancadas no encanamento. Decerto, havia entre nós mais eco que som. Talvez eu deva grafá-lo em maiúscula. Era perfeitamente possível ouvir, às tardes de quarta e sexta, a varredura, o arrastar de baldes, o zumbido da enceradeira a deslizar sobre o piso da portaria.
Depois, conformaram-se os demais dias da semana.
Com os elevadores.
Os elevadores corriam silenciosos, sepulcros bem azeitados. Não sei se entre os condôminos havia alguém que tratasse das próprias refeições. Muito me surpreenderia. A região é bem servida de restaurantes populares.  
Em seguida, vieram as ervas, posteriormente tipificadas em boas e más. De suas sementes, que o vento espalhava pelos pátios e terraços como uma pequena e exangue daminha de honra, cresceram bufês vegetarianos, as promoções das pizzarias...
Houve mesmo uma ocasião em que ficamos sem luz.
Digamos que tenha sido a explosão de um transformador aqui pelas redondezas o que nos lançou definitivamente na longa noite do Não-Ser. Tivemos então de usar as escadas, onde Eco estava sempre em vias de se corporificar em algo: um vizinho, um loureiro, uma lata de lixo.
Descia-se pianinho, sob o fio de uma súbita precipitação.  
Já o edifício cujos fundos ocupavam quase toda a vista da minha sacada, este nunca dera mesmo mostras de ser habitado.
Sumida a vizinha, criou-se a vizinhança.
Os Oceanos remoinhados, os Animais...
Estes pareciam calmos, mas ofereciam um problema de escala.
Talvez não estivessem calmos. É concebível que isto tenha se dado antes do surgimento das expressões.
Durante um breve entretempo, então, fomos o Primeiro Homem. O Primeiro Homem a se pronunciar, pelo menos. O Primeiro Homem a não ter o que dizer.
Nós sabemos.
Porque sei que vou morrer – voltaremos a isto mais adiante –, porque sei que tenho em minhas mãos um signo barricado em cujo interior minha morte é incessantemente elaborada e reelaborada, começo a construir um personagem.
Um nexo, uma “consciência”.
Um centro.
Um centro que siga.


            


Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Tuiuiú

  
        Um leão, galos e galinhas, animais velozes, tartarugas, um elefante, marsupiais, um aquário de muitas coisas, animais de orelhas compridas, um pássaro que canta no fundo da floresta, outros pássaros, pianistas, fósseis e um cisne. Minha casa é cheia de animais de plástico, miniaturas, e uma gata. Uma vez sonhei que brotavam salamandras das torneiras. Poucos meses depois, sonhei que tinha um minotauro de estimação.
No meu sonho, o minotauro precisava ser mantido à base de carinho, ou fugiria. O meu maior medo era que, na fuga, destruísse minha casa e depois o mundo inteiro. Emily Dickinson escreveu um poema em que diz que um sapo pode morrer de luz. Em outro, sobre quando ela mesma morreu, conta que uma mosca ficou no meio do caminho entre ela e a luz, e o universo deixou de existir. Bom, eu ainda me lembro da sensação de ser pequena o bastante para colocar meus dedos sobre a mesa da sala e ficar com os olhos na altura dela. O que eu via quando olhava para cima era luz sobre luz, a luz da janela refletindo no verniz da mesa e voltando em direção à fonte, indo de encontro consigo mesma. De resto, pessoas e móveis eram gigantes, opacos e não me interessavam.
Ultimamente não tenho bebido água em casa porque meu filtro de barro virou um cemitério de aranhas. É a segunda vez que isto acontece. Na primeira, fui encher meu copo e vi que uma aranha quase transparente de tão minúscula caiu dentro dele. Joguei fora a água e fui enchê-lo de novo; mais uma aranha caiu. Então encontrei uma fileira delas marchando em volta do filtro, indo em direção ao ponto onde as duas metades dele se juntam. As aranhas entravam no filtro por frestas nessa junção, e quando levantei a parte de cima, descobri que havia uma colônia inteira delas dentro d’água. Mortas e incontáveis, eu as bebia há não sei quanto tempo. Limpei o filtro e vedei a fresta. Mas elas voltaram. Vocês que me visitam também já beberam das minhas aranhas.

Em 1855, Walt Whitman disse que poderia morrer com o sol nascendo, se não fosse ele também capaz de irradiar um sol para fora de si. Minha gata caça baratas e moscas, eu mantenho minhas aranhas mortas, minhas plantas têm desmaiado de insolação. Em 1856, Emily Dickinson disse sentir pelas criaturas da natureza um “êxtase de cordialidade”. Eu agora venho todos os dias na casa da Deborah beber água. Hoje nós duas ficamos na sala, olhando para sua gata que olhava para fora da janela. A gata encarava a luz, piscando muito rápido para não desviar o olhar, e a Deborah disse “Pare de se comunicar com o sol, Matilda”. Mas ela nunca para.




Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Mata-Borrão


Nossa Senhora

Andava eu, basalto fora, a boca a saber a lapas. A vida a deixar-se pensar, um abuso quando ela começa nisto. Pensa-me, pensa-me. Submissa ou prepotente. Abana o rabo, rosna, pede festas. Um cão, a vida. E ali, como não lhe dar atenção, no berço de cedro, dossel de cinzas, lençol de enxofre bordado a hortências, pétala a pétala, já cansada, a névoa bordadeira.

Baleias a respirar como quem cospe e eu a fazer-me desentendida. Penduro a vida no ramo de um dragoeiro. Fica aí, espera pelas naus. Vais ver que gostas do cheiro a canela. Qual. Conjuga o verbo biografar em todos os tempos e se há tempo para isso, é ali. O sol cru a aquecer a memória, a enxugar o sal aos olhos. E deste céu primordial cai uma chuva grossa, mitológica, sem vento, sem frio, sem aviso. Páro, não há lugar de abrigo. A lava é uma artista do mais contemporâneo. Quis lá saber das simetrias, brincou a escorregar. Lá em baixo, muito antes do mar que dali não se vê nem se escuta, vi a Nossa Senhora. Devia estar num pingo, como eu. Os cabelos esvoaçantes porque corria desalmadamente, deixando o manto azul esvoaçar também. A Senhora, neste preparo, nada tinha de sereníssima. Fui ao seu encontro. A vida entretanto, ficou expectante. Onde é que esta vai. Deixou de pensar em mim.
Profundo, é verdade, mas breve, o mistério.

Quando, por certo cansada, começa a subir o vale, começa também a ver-se o andor, os ombros de quem o transporta, depois a banda filarmónica e, por fim, os fiéis. A chuva parou, outra vez sem aviso. Não quis levar a vida com ela. Era uma procissão de uma freguesia. Do lugar onde eu estava, pareceu-me uma aparição.  


Maria João Forte é socióloga

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Aborrecimento, quase poesia



XII: Três Passeios



            Abrindo os braços em discreta atitude de crucificado, consigo abarcar o início e o fim da piscina pública.
            Um gesto que uma criança faria logo antes de pegar no sono, talvez. Uma tentativa de tornar material o percurso de uma noite até a manhã seguinte. De retirar da sombra, da ininteligibilidade, dado caminho.
            Cabeça inclinada para a direita, o que penso enxergar é uma construção rematada.
            Este movimento da cabeça leva um intervalo de dois anos, aproximadamente.
            Dia desses, folheando o Kwaidan, dei com a seguinte fortaleza: “a space of garden”.
            Alguém atravessava, na narrativa, “a space of garden”.
            Formula-se então, agora, um espaço de braços, um trecho de braços, um intervalo de braços.
            “Um intervalo de braços”, anoto às pressas.
            Circulo.
            Estendendo-os assim, como se tivesse as tríplices mãos pregadas a ripas de madeira, consigo representar certa trajetória rumo a um estado de completude.
            Um pensamento que sempre me ocorria quando me via constrangido a consultar os Classificados de qualquer jornal atrás de emprego ou moradia era o da eternidade do círculo.
            Não era um pensamento sumoso. Não impressionava pelo que pudesse conter de desdobrável, de cultivável.
            Impressionava por sua violência.
            Era, antes de mais, pensamento de secura extrema. Uma aproximação de grande silêncio. Um remate. Um remate antes mesmo de começar.
            Despregando as mãos das ripas de madeira e fechando os braços em discreta circunferência, crio um espaço perfeito onde a piscina pública pode existir
            Crio um espaço propiciatório.
            Há uma inauguração na minha mão direita.
            A mão que escreve.
            A mão que circula os Classificados.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, ele pensa, pesando algumas notícias das quais não conseguira se desviar a tempo.
            Sabe-se que o passado, o pretérito, sugere intimidade. “Rumou então para o bairro onde nasceu e passou grande parte da infância, receando não o reconhecer”. Pode tornar-se uma estratégia: tornar tudo antigo e íntimo, trabalhar por esta viscosidade.
            “Receio reconhecê-lo, receio não reconhecê-lo. Eis o ponto a que chegaram as coisas”.
            O medo, apresentado de certa maneira, pode também tornar-se tático, um ardil, uma forma de enredamento. Certo modo de dizer-se com medo. Uma suavidade, uma decência. Um medo pálido, registrado apenas nos olhos que alternam entre cerrada ausência e a vaporosa tensão do retorno. Um medo profundamente matizado pelo próprio pudor do medo.
            Vejam.
            Uma pessoa tem medo e usa este medo como uma espécie de túnica semitransparente, uns volteios, não mais. Um medo eterizado. Um medo aeriforme. Um medo sem consistência, palpabilidade, um medo que desliza sem fixar-se por sobre a realidade dos objetos. Um medo que, por não reconhecer ameaça direta, não alcança profundamente a necessidade de reagir. Um medo que já não parece dizer nada sobre a perpetuação de si, um medo que parece ter se alçado a patamar diverso, um medo que já não é o medo da dor, da interrupção, da morte.
            Vejam.
Medo sem predicado. Medo que não se resolve nem nas imagens típicas do medo nem nas reações típicas ao medo. Um medo composto, medo medido que não desemboca. Não grita. Não faz demandas. Se já fez algum dia, não importa em nada. 
            Um medo que torna espectral aquele que teme. Medo que nos torna vaporosos e agradáveis. Um medo que é como a nudez. Mas a nudez de um corpo desejado. Um tipo desejado.

***

            “Não saberei mais caminhar nessa cidade”, pensou.
            E depois:
            “Verei a casa. Felizmente estará livre de nascer, crescer, abandonar. Nenhum vínculo comprovável. Nenhum visgo. Será apenas mais um espaço interdito. Um entre tantos.
Caminharei em círculos em torno da construção. Darei por irrecuperáveis as vistas de suas janelas, a disposição dos móveis, a antiga sufocação.
Verei a casa. Felizmente estará livre de retornos.
Verei a casa enquanto ela muda.
Enquanto se lava, se desveste, enquanto se descontamina.
Não se decompõe.
O que quer que seja que a habite agora deve semelhar em tudo uma espera.
Sua nudez, protegida por paredes cujas nervuras posso ainda sentir nas mãos. Sua nudez sem escândalo, achatada em composição, nada mais. A nudez de um morto. Volumes, massas, espaços vazios. Mesmo o chão. Mesmo o chão não será mais aquele pelo qual nos rastejamos por tantos e tantos anos.  
Não aventuro dizer que a casa tinha uma alma.
Não aventuraria dizer alma em referência ao que quer que fosse.

Mas um corpo, uma carne, isto ela tinha”.








Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Mata-Borrão



Desta que munto le quer

Rei de Portugal e dos Algarves, D’Aquém e D´Além -mar em África; a bem da Nação, cordialmente; os meus melhores cumprimentos; desta que munto le quer.
Porque sou velha, guardo um tempo em que saber ler e escrever era uma habilidade de grupo restrito. As cartas eram escritas a pedido.
Sentadas e quedas iam ditando, sem hesitações. O texto decorado, as ideias pensadas. Como no teatro, mas sem ponto. Como num bordado, a ponto de cruz.
Minha mãe, estimo que esteja bem na companhia de quem mais desejar, que eu cá ando como Deus quer. Saberá que vou aí à festa. Adeus, adeus até à volta do correio. Desta que munto le quer.
Para os namorados escrevia-as eu, sozinha. Quando sozinha tinha acento grave no o.
A introdução, meu amor, trazia o sangue à cara. Quando for à festa, havemos de dançar. Isso não! Riscava-se. Deixam-se as saudades para o final, sem beijos. Arrisco o abraço, amachuca-se o avental debruado a grega e a nervos.
No final, eram lidas pausadamente. Mistério denso, esse das ideias serem ouvidas numa folha pautada que se tirava do bloco, com jeito e determinação. O rrrrrrrrrr do papel a desprender-se fazia parte da coisa. Dessa coisa séria, as cartas a pedido.
Dobrava-se então a folha. Cirúrgica, a unha do polegar no vinco. E se de vincos percebiam elas. Nas calças, nos lençóis, nas cortinas, na massa folhada.
O cerimonial do cuspo deixava a língua áspera, a saber a envelope. Endereços sem rua, sem número. Apenas o nome da aldeia, do concelho e da província. Seriam levantadas na venda onde havia telefone, bacalhau, massa, sabão, ponteiros para as lousas da escola, copinhos grossos e opacos com vinho e bolachas de baunilha.


Maria João Forte é socióloga


sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Nem ele sabia


Desde que a li, para aí há uma década, que recorro muitas vezes àquela aula que Eduardo De Filippo deu na Universidade de Roma La Sapienza lá pelos anos finais do tal século passado. Dizia o genial napolitano (autor e actor) que o escritor será o pai da personagem, cria-a muitas vezes à noite, num acto de amor, a personagem demora um certo tempo (nove meses também?) a nascer, lá nasce, e segue a sua vida, e o pai, erotómano como ele próprio era, já está a fazer outra e tantas vezes a outra – que não a contratual - mulher.
Pois, o autor deixa a personagem, esquece-a, ela cresce, vai à sua vida e amadurece, arranja empregos e ganha pão. Mas o actor não, entre ensaios, estreias, viagens de comboio, sozinho no automóvel tentando aprender o texto de cor (sim, os actores gastam gasolina e poluem ambientes só para aprender alexandrinos decadentes), reposições, gravações, remontagens, o actor vive com ela, amancebado, um ano, dois, às vezes dez – é pensar no Sean Connery/ Bond, coitado.
O actor conhece a personagem, sabe-lhe as falas, descobre-lhe os silêncios, empresta-lhe o peito, as pernas, o sexo, o corpo até, despudoradamente nu, encarna aquele que o Autor já arrumou na gaveta alta dos “feitos” assinalado com um X a preto ou vermelho. Para o Actor, não:  a personagem está viva, é ele.
E  conhece-lhe os defeitos, claro, a cobardia, a mesquinhez da Candidinha, a ambição de Lady Macbeth, a avareza de Harpagão, a vaidade de Alceste, a tibieza de Hamlet, conhece isso, são as suas próprias ambição, avareza, cobardia, tibieza, vaidade, são as dele mesmo, actor. E mais, o Actor conhece-lhe os defeitos técnicos que o Autor escondeu para debaixo do tapete: quem faz a Maggie da “Gata em Telhado de Zinco Quente” sabe que Tennessee Williams se esqueceu dela durante quase todo o acto II, quem faz a Maxine  de “A Noite da Iguana” sabe que vai ter de sair de cena a correr gritando “A conta! Têm de me pagar  a conta!” , quando, a bem dizer, ninguém lhe devia nada, e só porque dá jeito ao Autor - e a todos nós - ficar sem ela na cena seguinte.
Pois, diz De Filippo, o Actor é o Confessor da Personagem, conhece-lhe os vícios, os pecados, os defeitos, e absolve-a, encarnando-a, milagre de quem “toma posse” e não é ministro.
É como o tradutor, disse eu no outro dia ao falar da admirável tradução que o Manuel Resende fez de 145 poemas do grego Konstantin Cavafys e que a Flop vai editar por estes dias. Só não traduziu 9, diz ele, “porque não sou capaz”, admirável, raríssima confissão de homem honrado.
E é que traduzir isto é obra de uma vida, foram 25 anos a ir e vir, traduzir e rever, refazer e reler,  encontrar uma solução e desistir, ler de novo e esquecer, deixar de lado e esperar melhores dias: são vinte e cinco anos de labor e indolência, de resistência e alegria, tristeza e intensa alegria.
Sim, ninguém sabe a  explosão de alegria que nos abala quando encontramos a tradução luminosa para uma frase que amamos. Por exemplo (e contei-o à viúva que me deu um beijo) quando, ao dirigir “O Quarto” de Harold Pinter, eu andava abespinhado  com o facto de a Lia Gama (maravilhosa actriz) ter de dizer repetidas vezes “Ó sô Kidd!”, e como dei pulos de mozarteano júbilo ao descobrir que podia dizer “Ó sô Junior!” e assim indicar o duplo sentido daquele nome de família.
Nem imaginam como é angelical a alegria do tradutor ao fazer-se entendido pelo Autor, é como se este o amasse (e é só o que queremos, aqui sentados, notes e noites adentro).
Traduzir (como interpretar) é escrever “transfomando-se o tradutor na coisa amada”, quase às cegas meter-se na música que toca, dançar-lhe a valsa, ao autor.
É ver como ele escreveria nesta nossa língua, é experimentar, é ensaiar.
“Se calhar é porque tenho formação científica”, dizia-me a Glicínia Quartin, “que gosto tanto de representar, é como experimentar, um bocadinho mais disto, umas gotas daquilo... e a vida a crescer...”
Pois é. Confessores, os tradutores e os actores, benditos sejam.
E, com o Manuel Resende, percebemos que Cavafys, o grego de Alexandria morto e remorto, passou agora a escrever em português. Definitivamente. Nem ele sabia... 
Nem Karl Valentin também sabia que tinha a minha cara (e a do Luis), embora o nariz fosse o dele.

Jorge Silva Melo
 
 
 
Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948, estudou na Faculdade de Letras de Lisboa e depois na London Film School. Crítico de cinema e teatro, encenador e actor, fundador, com Luis Miguel Cintra, do Teatro da Cornucópia, estagiário na Schaubühne - com Peter Stein - e no Piccolo Teatro/ Scala de Milão - com George Strehler -, argumentista, professor, tradutor, ensaísta, dramaturgo, realizador de cinema. Dirige, desde 1996, os Artistas Unidos. 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Tuiuiú

        
          É difícil. Todos os dias quando eu acordo, tenho que levantar e criar as coisas do mundo, porque nada ainda existe. Convoco-as. As coisas quando surgem não têm medo de encostar em mim. Nem mesmo as que vieram sem tampa. Hoje acordei e fiquei um tempo deitada no chão: já existe o chão, a casa, a vassoura, a sujeira e você. Cinco coisas – e algumas ações por fazer. Não sei se vou fazê-las. A preguiça sempre existiu, então nunca precisou ser inventada. Olho para mim mesma e sei que tenho inúmeros dedos nas mãos, o que significa que às vezes minhas contas saem erradas. Cinco coisas ou muitas. Todas as noites, quando estou dormindo, elas se aproximam e decoram meu nome. Repetem meu nome, quase em silêncio. Mas as coisas se dissolvem nos dias, e por isso estou sempre as criando de novo.

Saí de casa. Caminhei um tempo no sol (meu sol) e criei a terra à minha frente com cada passo que dei. Conheço apenas uma pessoa que fez isso antes. Voltei ensolarada e morna. Como uma pedra do deserto – dessas que você leva no bolso. Encontrei um homem que me perguntou se seu braço direito poderia ser uma espada, se tudo bem. Eu disse “apenas a primeira letra do alfabeto, a letra Alif, pode ser uma espada”. Ele entendeu, mas ficou triste. Então eu lhe dei cabelos compridos, que são lindos.

Você se lembra do dia em que nós dois, juntos, tiramos todas as pedras do seu bolso e as colocamos na mesa? Você me convenceu a cobrir cada uma delas com plástico-filme. E eu aceitei, mas foi dessas coisas que aceitei mesmo me sentindo perversa. Peguei uma delas na mão e a trouxe até meus lábios. Dei-lhe um beijo e nos olhamos, confusas, ninguém riu. Apertei-a por mais um tempo contra minha boca, até que meu calor a fizesse ficar minimamente morna. Passamos muitos dias em silêncio. Nesse período, deitei-a todas as noites no travesseiro ao lado do meu para que sua presença calma guardasse meu sono curto. Um dia, acordei antes que ela soubesse e a ouvi dizendo, sozinha: “eu nunca nasci. Nunca precisei nascer”.


Você não sabe dessa história, ela é secreta. Um dia nós dois seremos felizes, eu e você. Isto é, se depois das pedras, conseguirmos resolver a invenção das frutas. Porque elas sempre morrem; eu as invento com vida demais, é por isso que à medida que ficam mais maduras vão enchendo o ar ao redor de um cheiro cada vez mais forte, um cheiro forte de fruta. Você já deve ter percebido. Elas passam da medida. As frutas multiplicam-se em si, apodrecem de ser tão elas mesmas. Um dia você vai fazer a coisa mais linda de todas, vai girar a mão no ar e inventar o figo. Você vai dizer: “o figo não é uma fruta, é uma flor invertida. Cada semente, cada uma das milhares de sementes que estouram na sua boca ou na minha, na verdade é uma fruta em estado de espera – precisa ser fecundada por uma vespa e então nascer”. Você vai dizer: “o figo tem muito tempo futuro dentro de si. Eu posso te oferecer quantos você quiser”.






Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.





segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia








Um Poema aos 32

Quero a casa promíscua de espaços
Esta luz, aquele cabimento
Morrer desde já sem a palavra pétala
E relógios para amar claro

Quero riscar cidades de chapéu cinzento
A conversa entre aposentos, brisa
Bosque cenográfico
Cela extrema, unção do cinema

Quero paredes descansadas
Objetos que restem sem estremeção
Dançar a salsa dos presidiários
Redescobrir o nariz ao piano

Quero afiar meu reflexo nas facas
E estar na vida sem qualquer esperança
Novamente o cinema sem vísceras
A noite no deserto imaginado

Com boca de gengibre batucar
O homem de trinta do Sergio Sampaio
Quero ler sem apocalipses
Quero colina e rumor calmo

Quero ser o Drummond dos pederastas
Discreta mãe que ronda os telhados
Quero trânsitos graciosos
De elegia em elegia

Quero escapar de uma ilha nem
Que seja para acabar em outra
Quero mais trinta anos de vida
Estes sem medo





Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
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