terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Mata-Borrão



Anjinho


Fotografias, só a dos pais. Tirada antes de ele ir para França. Diziam que era longe. Mas a ela, França lembrava-lhe o nome Francelina, a filha dos da venda, sempre a fazer queixas à Professora e a rir baixinho por baixo do barulho das reguadas.
Queria lembrar-se do pai lá nessa terra, mas só isso lhe vinha à cabeça. Depois punha-se a olhar para ele, emoldurado ao pé da mãe, rente ao tecto, ao lado de um quadro com o coração a sair do corpo de Jesus.
Logo, em se fazendo noite, havia de ser anjo. Ou não fosse a madrinha ter-lhe comprado na cidade aquela lindeza. Já ia para um mês que o seu gosto era ficar ao pé da arca. Por querer abri-la já lhe valera a palma da mão, num repente maternal. Lá dentro, embrulhada numa manta, a terrina pintada com flores, rosas grandes e rosas pequeninas. Ganharam-na os pais, numa feira, e nunca se podia partir, por isso vivia ali, resguardada, ao pé de um cobertor muito macio com um bicho desenhado. Um bicho que parecia um gato, mas não era bem um gato. Nos invernos gelados vinha-lhe à ideia esse cobertor, mas melhor assim. Ia lá dormir com aquilo. E cá em cima, rente à tampa, duas asas feitas de espuma, açúcar, rendas e penas.
Todo o dia sentiu a trança muito apertada, mas a mãe tinha-lhe dito que assim era preciso para fazer ondas no cabelo, costas abaixo, como as colchas nas paredes, em dias como aquele, de procissão.
O pai da Francelina vendeu-lhes uns metros de pano branco. A mãe, com a cara das coisas sérias, os olhos colados ao metro de madeira, enquanto o pano se libertava. Havia de ser o vestido. Ai.
Sendo promessa, nunca mais pensou nos sapatinhos brancos que uma vez vira na montra do calçado Estrela, lá longe, na vila. E se descalça andava sempre, que lhe importavam.
À primeira badalada, depois da mãe lhe ter lavado, mais uma vez, o rosto, seguiu para a igreja. Foi já na sacristia que a vestiram.
A banda abafa o cortejo de tosses, o sussurro da Salvé Rainha, Mãe Misericordiosa, vida doçura, esperança a nossa, nós os degredados filhos de Eva, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Dos corpos cobertos por xailes negros espreitam terços, velas, meninos de colo à procura de leite. O ar carrega-se de cera.
São os pés dos homens que carregam o andor do S. Sebastião que marcam o ritmo. Se eles param, ela pára também, os passos miudinhos. Tão perto, aquele corpo cravejado de setas como as que os namorados desenham nas árvores. Dava muito dó.
Às vezes, precisa correr para acompanhar a passada mais rápida do Senhor Prior que arrasta todas as outras.
As asas pesam-lhe e sente medo. Calhando, já não dorme hoje em casa, que o lugar dos anjinhos é no céu. Aflita, procura a mãe com o olhar e não a vê. À sua volta, a aldeia não parece a mesma, não é a sua.
A fonte, que é da fonte? O castanheiro grande? A ribeira com caixas de madeira onde as mulheres se ajoelham para lavar a roupa? A Francelina a dizer bem-feita, bem-feita, bem-feita, que foste tu. E o adro? Sempre tão varrido, tão liso.
Acordou nos braços do sacristão que lhe cobriu o corpo com a opa vermelha.

Um gesto certo, aquele. Quase lei, decreto de alma. Quando se encontra um anjo no chão, há que pegar-lhe, cobri-lo de seda rubra, para que perca o medo e volte a voar.


Maria João Forte é socióloga

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Invisível


2

Agora que vocês já a conhecem, não é nenhuma surpresa que quando ela cortou a primeira fatia do bolo do seu aniversário de sete anos, com a faca de baixo para cima e, sem contar pra ninguém, desejou ficar invisível, não é nenhuma surpresa que seu desejo tenha se realizado. Não foi imediato; tiveram que esperar até a manhã seguinte, quando a Sofia acordou e todos tinham feito seus tai chis e não a encontraram em lugar algum nem mesmo quando procuraram de ponta cabeça. Finalmente ela estava invisível e órfã e livre, como todas as crianças sempre quiseram ser.
E sua mãe dizia SOFIA, sua mãe dizia SOFIAZINHA, sua mãe dizia SOZINHA, sua mãe dizia me dá um S, me dá um O, me dá um F, me dá um I, me dá um A, SoooooOOOOFIA, CADÊ SOFIA! Me dá mil pontos de exclamação! mas a Sofia não precisava mais ouvir, porque já tinha decidido que se a luz não rebatia sobre ela o som também não precisava, quando não fosse conveniente.
Naquela casa moravam também duas gatas e uma dúzia de peixes num aquário e um cachorro, e eles todos ficaram um pouco mais felizes porque compreenderam que ela tinha passado para o lado deles. Agora que ela era invisível, era também em parte secreta, como são secretas as vidas dos animais dentro de uma casa de humanos.
Mas estou me adiantando, porque apesar de eu saber disso e vocês saberem disso, a Sofia ainda não sabia. Ela acordou e a manhã correu como de costume: saiu do quarto e percebeu que todo mundo estava desesperado, não se interessou em descobrir por quê, voltou para o quarto e sentou na beira da cama.
— Todos estão mesmo sempre desesperados, não é hoje que eu vou no desespero dos outros — ela disse em voz alta, talvez porque soubesse que nós estávamos ouvindo.
O aquário de peixes dourados ficava na frente da sua cama. Ela dormia toda noite com o barulho do motor ligado e aquela luz fria acesa, e sentia-se em alto mar. Deslizou até o chão porque sempre que possível se movia com preguiça, e foi conversar com os peixes.
No aquário tinha uma sereia de plástico sentada numa pedra de plástico, usando óculos escuros. A Sofia passava horas olhando para ela. Um dia venceu segundo lugar num concurso da escola (tédio) com um desenho que fez da sereia, acompanhada de peixes azuis de rosto redondo feitos cada um só com uma linha de canetinha: primeiro ela desenhava o rosto, meia circunferência aberta para o lado, depois estendia o traço da circunferência em um dos lados, deixando o peixe mais comprido do que redondo, delineando metade de seu corpo, até formar um triângulo que servisse de rabo. E  aí a linha voltava pelo lado contrário, completando o outro lado do corpo do peixe, unindo-o ao rosto. E então o peixe ganhava meio sorriso e um só olho, porque ficava simpático assim, de perfil.
Dentro do aquário, um peixe dourado veio nadando até o vidro, bem perto de onde a Sofia tinha colado o rosto que, do ponto de vista dele, parecia enorme. O peixe olhou de frente e começou a rir. A princípio a Sofia achou aquilo estranho, um peixe rindo, mas depois pensou de novo e decidiu que não importava se era estranho ou não, porque era ofensivo aquilo, ser rida por um peixe. O peixe nadou até a superfície, inclinou a cabeça para cima e riu de novo, desta vez fazendo bolhas na água. A Sofia afastou o rosto do vidro, com nojo.
— Vol-vol-vol-ta — disse o peixe, que tinha um pouco de ar e e um pouco de água no meio de sua palavra.
— Por que você está rindo da minha cara?
— Você já viu um peixe rindo antes? Como sabe que é isso que estou fazendo?
— Eu nunca vi um peixe falando antes, e a gente agora está aqui conversando, o que significa que eu de repente entendo você mesmo sem saber como, e mesmo sem saber como, sei que você estava rindo de mim.
— Você entende mais do que sabe que entende, você pensa e não pensa e, no entanto, você é cogito ergo sum — disse o peixe, que agora parecia usar óculos.
Cogito ergo sum, esse não é meu nome.
— Não.
— Você sabe qual é meu nome?
— Sofia — disse o peixe. — Sofia em antigo grego humano significa “sabedoria”, cogito ergo sum em latim humano significa sei lá o quê. Já eu me chamo Só-sei-que-nada-sei, você está me acompanhando?
— Sei lá?
—Vamos voltar ao assunto principal.
— Qual é o assunto principal, senhor Sei-lá-que-nada?
— Pode me chamar de senhor Nada. É mais curto, e nós peixes gostamos de nomes curtos, com exceção dos salmões, que têm nomes como Querido Quinino Quilate, Diamante dos Dentes de Ouro, Panela de Aço Inoxidável.
— O senhor pode me dizer qual é o assunto principal, senhor Nada?
O senhor Nada mergulhou até o fundo do aquário, respirando água, e olhou para o alto. Os outros peixes faziam silêncio em respeito a ele, quase parados atrás da sereia de plástico. Sabiam identificar uma situação solene. O senhor Nada ficou um tempo olhando os flocos de ração que boiavam na superfície. Amarelos, vermelhos, verdes, todos translúcidos e leves o suficiente para não afundar. A pequena Sofia olhava o senhor Nada que olhava para a luz que atravessava os flocos coloridos. A hora de ir para a escola já tinha passado e ela ainda estava lá. Pela primeira vez percebia que as barbatanas do senhor Nada tinham a mesma transparência que os flocos de ração, só que eram de um laranja vibrante, como se além de deixar a luz passar, elas emitissem também um pouco de luz própria. A Sofia se perguntou por um instante se os peixes eram um pouco transparentes de tanto comer comida transparente, e seu cérebro estava prestes a se perguntar qual seria o paralelo disso para os seres humanos, se eles são opacos porque comem pão, opãocos, mas antes que a pergunta fosse formulada, o senhor Nada a interrompeu:

— Você passa muitas horas do dia sem saber o que fazer, não é?









Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Aborrecimento, quase poesia



XVI:  Invocação do Pianista do Hotel Duomo

Depois, o ar fresco. Espécie de enlevo ao atravessar o estacionamento, malgrado o peso das sacolas, ganhar a calçada, iniciar a caminhada de quatro quarteirões, não mais, e todos nivelados.
Morosidade da fila. A vertigem que nos metem as velocíssimas mãos dos caixas. O costumeiro atrapalho à hora de ensacar, tanto mais humilhante quanto inevitável.
Em seguida, cruzar uma pequena passagem da noite, baixa ainda, justo o pedaço onde se acha o Hotel Duomo.
Há, no mundo, coisas feitas para a anonímia – o Hotel Duomo é certamente uma delas. A construção datará talvez de fins dos anos 1980. Ideada – como a grande maioria dos edifícios desta cidade – para não desvairar dos arredores, com vistas a uma perfeita integração. Sem capricho – sem propriamente um estilo –, trata-se antes de mais de uma excrescência do espírito do tempo, de um certo tempo. O fato de que não aparenta ter sido reformada em nenhum momento desde então é o que acaba lhe emprestando, passados quase vinte anos, certa autonomia com relação aos demais prédios da rua.
Eis a fachada, toda em vidro fumê. Quanto a isto, quanto a esta palavra, “fumê”, não podemos fazer nada. Ei-las, impunes, a palavra e a fachada do Hotel Duomo.
Separam-na do rés-do-chão algumas polegadas de mármore cinzento. Deste mesmo mármore de aspecto triste e algo encardido, os três degraus que dão para as portas do saguão, sempre abertas.
Um relance descobre no interior do saguão o inevitável conjunto de poltronas de estofado bege, semelhando couro, e mesinhas encimadas por vasos de vidro com copos-de-leite artificiais; o deslustrado balcão de recepção, atrás do qual as pequenas autoridades do hotel tratam de seus afazeres; funcionários de uniforme – mortos já, talvez –, alguns deles transportando de um extremo a outro da peça carrinhos de bagagem vazios.
Conexo ao saguão tem-se, no entanto, o piano bar do Hotel, diante do qual me detenho às vezes por alguns instantes ao voltar do supermercado.
Geralmente, nesta altura da noite as luzes do bar já estão acesas. Pode-se, da calçada, ter uma vista razoável do interior. Dentro, o governo incontestado de tons terrosos e amadeirados. Iluminação quente e suave, contrastando fortemente – irrealmente – com as luzes brancas do saguão. Prateleiras e prateleiras de garrafas de vidro contendo líquidos de cores as mais diversas, ainda que emudecidas, presas numa espécie de âmbar devido à iluminação pardacenta e ao fosco da vidraça.
Por vezes, vemos um barman. Esguio e uniformizado, como se esperaria, em perfeita consonância com o que vai de redor, enxagua copos com o olhar voltado talvez para o exterior da peça, para a vidraça, para as figuras que passam pela calçada. Este olhar ausentado, por vezes me fixo nele, deixo-me apreender, mas não é sempre. Não é sempre que o barman do piano bar do Hotel Duomo se encontra em seu lugar.
Já o pianista, o pianista do piano bar do Hotel Duomo, este nunca abandona o seu posto.
Há dois anos, desde que me mudei para cá, faço este trajeto do supermercado até o edifício onde vivo, e nunca vi seu piano desassistido. O canto que ocupa é bem próximo da vidraça. Uma espécie de nicho construído precisamente para isto, amoldado às dimensões do piano. Também o nicho é de vidro fosco. Através dele, é possível que o pianista enxergue os hóspedes que entram e saem, o arrastado vai-e-vem dos funcionários de quepe, os microacontecimentos nos lábios dos recepcionistas.
 Mas ele não vê o que se passa lá fora. Pelo menos não enquanto toca. A menos que tenha olhos na nuca. Está sempre de costas para a rua, para a calçada – de costas e um pouco de lado. Vejo sempre uma sugestão de rosto. Mas de seu olhar, acerca de seu olhar, tenho apenas conjecturas.
O que vejo ao passar pela fachada do Hotel Duomo são as costas de um homem já entrado em anos, levemente curvado sobre as teclas de um piano, as quais vai dedilhando sem nenhum esforço ou emoção aparente. Aquele âmbar estará então cheio de música, uma música que devo imaginar, que devo preencher, ao passar, por minha própria conta. Esta operação de preenchimento me é sempre agradável.
Como se o peso das sacolas do supermercado começasse a se fazer sentir, paro por alguns instantes, alongo um pouco o pescoço, sempre na tentativa de vê-lo melhor, captá-lo mais inteiro. Revejo então a calva ordeira, penteada, cercada por uns poucos e discretos fios brancos. As mãos, projetadas da mesma jaqueta acolchoada de tecido sintético, são enrugadas. A jaqueta é creme, é eterna. As mãos, penso que a música as enrugou. Não apenas a idade. Também a música.
A música, também ela anônima, barata, deliciosa. Escolho um repertório inteiramente composto de standards óbvios, “êxitos imorredouros”. Música arquitetada apenas para dizer – redizer, redundar – “âmbar”, “fumê”. Baixos copos de uísque, acrílico, bico de jaca. Pequenas cumbucas de madeira sobre o balcão cheias de amendoins e nozes murchas, trocados talvez de três em três dias. Uma poeira narcotizante sobre tudo.
Terá sido ela, a música, a maior responsável pelas manchas. Terá sido ela a responsável por estas veias saltadas. A música como alavanca, como um intricado instrumento de tortura dos idos medievais. A música como calço. A música que empurra as veias para bem junto da pele, fazendo, eventualmente, com que a ultrapassem.
Ninguém as vê. Ninguém as ouve. É esta a conclusão que se impõe, já que lá dentro nunca há nenhum cliente, nenhum hóspede. O próprio barman, como já disse, visibiliza-se apenas de raro em raro. É concebível que as pessoas no saguão ouçam qualquer coisa, recolham displicentemente uma linha melódica familiar, acalentadora. Mas trata-se sobretudo de uma música vizinha, parte da mobília, como o queria o Satie. Comovente, inútil, imparável. Ainda que ninguém o ouça, que ninguém o ouça com atenção, que ninguém o ouça com presença, seus dedos moídos de muzak são uma chuva de dias. Podem parar a qualquer momento, bem como um rochedo pode vir abaixo a qualquer momento, sem aviso. Mas podem durar indefinidamente. É mais provável que durem indefinidamente.
            Penso que continuarão indefinidamente.  
Mas penso também, às vezes, à medida que vou me aproximando da fachada do Hotel Duomo carregado de sacolas de supermercado, em como reagiria se um dia não o encontrasse lá dentro, em seu posto costumeiro, tocando o seu silêncio, seu número de silêncio, e sou tomado então por uma espécie de pânico, uma glaciação na espinha.
Entro no saguão, as sacolas prestes a rasgar, pergunto por ele. Ninguém compreende nada. Espalmo as mãos suadas sobre o balcão da recepção, tentando acordar o funcionário, tentando trazê-lo de volta à vida.
            Mas não é esta a fantasia mais habitual. Há uma outra, muito mais regular, que sempre me toma quando passo pela fachada do Hotel Duomo. Nesta fantasia, entro no saguão do hotel, mas meu porte é imperioso. Caminho com elegância até o balcão e entrego as sacolas de supermercado ao recepcionista, que me sorri com gentileza. Em seguida, adentro o piano bar. Avanço pelo âmbar onde ele acaba de terminar La Barca. Aproximo-me do piano, inclino-me suavemente, trocamos olhares de perfeito entendimento. Já fizemos isto antes. Muitas vezes, até. Devidamente hasteado, um pequeno e antiquado microfone espera o vocalista sobre um pequeno estrado. Acerco-me. Começa.
You must remember this.. a kiss is still a kiss.. a sigh is just a sigh.
E a meio da canção, enquanto o pianista improvisa, o barman caminha silenciosamente até o estrado que ocupo para me entregar um copo de uísque com gelo e soda.
Nesta fantasia, vê-se, ainda tenho voz. Não a dissipei. Consegui conservá-la de algum modo, apesar da passagem dos anos. Tenho uma voz vigorosa, direta, mas sobretudo possível. Grave, acariciante, vivida. Uma voz que não se encolhe diante das notas, que não procura atingi-las por debaixo, mas que se mede com elas, que caminha por todo o terreno da melodia sem exaurir-se. Tenho uma voz que se encadeia como que perfeitamente ao piano, um piano que se encadeia como que perfeitamente ao pianista, um pianista que se encadeia como que perfeitamente à ideia que faço do pianista do piano bar do Hotel Duomo.
Tomo o copo nas mãos. Sorrio para o barman, assentindo com a cabeça longamente, vagarosamente, no ritmo proposto, pois tudo – tudo – faz parte agora deste acordo tácito e maravilhoso entre os corpos e as coisas, entre música e ambiente, entre voz e canção.
As coisas, pela primeira vez, unificaram-se.  
Nesta fantasia, vê-se, ainda não me proibiram de beber.

             



   Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.
            


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Mata-Borrão





Vi lá de cima Estremoz

Nem mesmo as freiras, de imaginação farta, se lembrariam de acrescentar o túmulo ao toucinho de céu, às gargantas de frade, aos canudos celestiais e aos papos de anjo, para celebrar em ovos e amêndoa D. Pedro e D. Inês. No entanto, uma pastelaria de Alcobaça vende o produto, aliás com sucesso.
Pode encontrar-se uma estátua de um percebe em Vila do Bispo, uma outra da batata-doce em Aljezur, a de um leitão na Mealhada, várias de frangos, na Guia.
Um longo cardápio de festivais cobre o país. Num deles, dizia-me um homem que vendia cogumelos na banca onde se lia o nome da aldeia que os representava “A cereja foi para estes, a gente teve que se agarrar aos cogumelos”. Era no festival da cereja do Fundão, tema ao qual me dediquei por uns anos. Também aqui, dentro de uma tenda que servia almoços, uma mulher local, vendo-me como sendo de fora, se aproximou, com uma chouriça na mão. Entusiasmada, segredava-me “coma, coma que é gourmet”. Um dos cartazes, que se via ao longe, rezava: engardunha-te. A aldeia situa-se na serra da Gardunha e o tempo verbal ordena qualquer coisa ao visitante. O visitante pasma-se, desobedece e não se engardunha.
A grande mesa autárquica cumpre etiquetas como outra mesa qualquer. Anfitrião, convidados, mais velhos e mais novos, dá-se a direita e a esquerda, cuida-se de não sentar ao lado quem não gosta de quem.
Estes fenómenos materializam-se também em algo que jamais teria passado pela cabeça dos nossos doutos geógrafos e políticos de antanho, sempre que lhes ocorreu dividir administrativamente o país. Refiro-me às capitais. Se o Rio de Janeiro e Angra do Heroísmo já detiveram essa designação, cabe agora ao presunto, à cereja, à castanha, ao cabrito, ao queijo, ao fumeiro, figurar com tal importância.
Vem isto a propósito de uma letra que compus para celebrar a nova aquisição de património que nos foi concedida. Pode e deve cantar-se com uma toada de pene-planície.

A esvoaçar num falcão
Comendo côdea de pão
De importante dieta
Vi lá de cima Estremoz
E um oleiro magano
Enquanto cantava o fado
Ouvia eu outra voz
A do cante alentejano
Mas que linda é esta voz
Vi lá de cima Estremoz
Bisalhães é outra loiça
Que agora foi premiada
Negros pratos e panelas
Para que toda a gente oiça
Esta grande novidade
Não são minhas nem são tuas
Pertencem à humanidade
Que dirão nossos avós
Vi lá de cima Estremoz


Maria João Forte é Socióloga 

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Invisível

1

Era uma vez duas irmãs. De repente era só uma, a mais nova. Ela se chamava Sofia, mas se vocês preferirem, pode ter outro nome, algum que seja bom de falar. Papoula, por exemplo. Papoula é ótimo de falar. Mas eu resolvi chamá-la de Sofia, e ficaremos bem desde que vocês saibam que esta é uma decisão minha e vocês não precisam aceitar minhas decisões. Eu só queria que vocês não confundissem a Sofia comigo. É uma complicação que eu criei aqui, e eu gostaria de evitar as complicações, se possível. Mas se coloquem no meu lugar por um instante: meu nome não é Sofia, não para mim, pelo menos, porque quando eu paro e olho e tento agarrá-lo dentro da minha cabeça, ele imediatamente se transforma em Aifos. Aifos Iksvortsen. Como acontece com todas as minhas ideias.
Um dia, muito tempo atrás e muito longe daqui, a Sofia que não sou eu era criança e morava numa casa que ficava na frente de uma grande árvore. A Sofia era exigente, e sabemos disso porque ela lia muito, a ponto de não ser amiga de nenhuma outra criança, nem de ninguém. Então ela vivia sempre sozinha, conversando com as próprias ideias e olhando para o chão. A coisa que ela mais gostava de fazer era fugir de casa. Um dia descobriu que algumas partes na base do tronco da grande árvore do quintal já pareciam isopor — tinham virado uma madeira fofa e desagradável, como as maçãs mais tristes do mundo. Foi nesse isopor que a Sofia conseguiu cavar um vão grande o bastante para entrar e ficar, ficar no coração do tronco. Cabia ela e mais ninguém. A árvore continuava viva. Os animais achavam que ela era a árvore, as plantas talvez achassem também (não tenho certeza) e era muito bom. Que surpreendente que é ficar dentro de uma árvore viva. Ela te cobre mas você não encosta nela, nem quando abre os braços, nem quando planta bananeira. Dentro da árvore. Vocês já entraram num útero? Então. Agora a coisa preferida da Sofia era fugir de casa e ficar escondida na árvore.
A Sofia também achava que fugir de casa era muito bom, porque você arruma uma mochila e nunca mais volta e é tudo culpa dos outros. Nessa mochila tem: uma boneca de plástico de feições redondas, mostarda, e todos os segredos que importam. Por exemplo: o segredo dos gigantes. O segredo é que são gigantes que deixam as marcas de sapato no cimento das calçadas. Só eles são pesados o bastante para marcar o cimento, mas têm pés pequenininhos, do tamanho dos nossos, então saem à noite, quando todos estão dormindo, para não passarem vergonha. Por isso que ninguém nunca viu os gigantes, eles têm vergonha dos pés. Outro segredo: a Sofia é tão bonita por dentro quanto por fora. É difícil encontrar outra pessoa que seja assim. Na maioria dos casos, as outras pessoas são um saco.
Quando a Sofiazinha se escondeu dentro da árvore pela primeira vez, ninguém sabia onde ela tinha ido parar, e todos ficaram desesperados, inclusive sua mãe, apesar de ela ter feito sua sequência completa de tai chi naquela manhã e tai chi é a única coisa que impede as mães de ficarem desesperadas! Vocês não imaginam como seriam as mães sem tai chi! Aquele dia foi ótimo, a Sofia conversou com as minhocas.
No dia seguinte, a Sofia tinha mais alguns segredos acumulados para guardar na sua mochila, mas esses nem eu sei quais são. A verdade é que ela tinha que ir cedo para a escola, então os segredos ficam para depois, eles nem pertencem aqui porque segredos são sempre interessantes e escola é sempre um téééédio. Mas não era tédio que ela dizia, porque naquela época ela falava outra língua, uma que fazia tédio soar muito mais redondo, como deve, porque o tédio é um planeta. Era lá que a Sofia era obrigada a passar a maior parte dos seus dias.  Ficava horas sem saber o que fazer com os próprios braços — se os amarrava à frente, ou deixava pendurados ao lado do corpo, ou se valeria a pena dobrar os cotovelos. E depois que se resolvesse a questão dos braços, o que fazer com a quantidade de tempo que tinha nas mãos? Nos momentos em que a Sofia saía do tédio e vinha para a terra comum, só conseguia falar com muito vibrato, para que todos ao redor soubessem que ela estava sofrendo.

[to be continued em um mês, aqui.]


Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia





XV: As conversas

“Que fazem as conversas?”.
            “Meandram. As conversas meandram de sombrinha em punho. Fazem footing.”
            “Que operações são postas em marcha?”
            “Paranças, vaguear à procura de banco vago, debruçar-se a parapeitos...”.
            “Encantar-se”.
            “As conversas focinham. Focinham, desordenadas, atrás de uma Arquipalavra”.
            “Aquela que a silenciará, aquela que colocará fim”.
            “As conversas, as pessoas. Tudo pede ser silenciado.”
            “É isto que corre por debaixo das conversas?”
            “Penso que sim”.
            “Mas as pessoas são os cafés, os terraços. São onde se conversa”.
            “Também eu. Há muito que penso nos sonhos como habitações, como espaços físicos. Às vezes, é como se eu pudesse tocar no papel de parede”.
            “Os raminhos traçam as veias e as artérias”.
            “Os raminhos são os nervos”.
            “Antes das conversas, não estaremos em silêncio?”
            “Não é bem o silêncio. É um inacabamento qualquer. Um estado de insaciedade”.
            “Que relação se pode estabelecer entre esta insaciedade e o escambo de signos e significantes a que se nomeia diálogo?”
            “Come again?”.
            “O que são amenidades?”
            “Não sei. Há tempos não tenho conversas amenas”.
            “Nos elevadores?”
            “Não tenho o costume de apanhá-los cheios”.
            “Gostaria de ter mais conversas amenas?”
            “Sim, mas por que admiti-lo em público? Seria como uma capitulação. Seria como confessar publicamente desejos de ligeireza. Não quero ser visto como um homem frívolo e barato”.
            “Repita alto e bom som”.
            “Alto e bom som”.
            “As conversas não encontram alguma coisa”.
            “É uma ótima definição”.
            “As conversas não encontram alguma coisa”.
            “Perdem uma carteira, um broche, um documento importante”.
            “Uma chave”.
            “A aldeia inteira”.
            “Como é difícil decompor um diálogo, não? Parece-me quase impossível isolar seus elementos constitutivos”.
            “Com efeito, parece mais fácil compô-los do que decompô-los. Tão fácil que tem um ar de trapaça”.
            “Certas pessoas parecem mesmo fadadas a construir, a não parar jamais”.
            “Isto me escandaliza”.
“O bom das conversas é ver como preenchem”.
            “Não é? Se ao menos isto fosse a vida. Uma maneira de ganhar o pão”.
            “Você estaria disposto a algo parecido? A conversar indefinidamente, a falar, a falar sem cessação, só para manter sobre a cabeça um teto; sobre o pescoço, uma cabeça?”
            “Por que não? Há precedentes. Além do mais, sinto que não me sairia mal entre os frequentadores do Algonquin”.
            “Então é uma arte?”
            “Sim”.
            “Mas é uma arte servil?”
            “É uma arte de corte, sem dúvida”.
            “Tenho a impressão de que aqui só se conversa sobre duas coisas. Finanças e saúde. Sempre com alarme. As pessoas precisam pagar boletos. As pessoas precisam fazer exames. Sempre essa toada. Quando não é isto, fala-se da saúde dos outros, das finanças dos outros”.
            “Com alarme?”
            “Com alarme e prazer”.
            “Bom, isto já foi dito. As conversas perdem a carteira. São onde se perdem as carteiras. Os exames. Os papéis importantes”.
            “A saúde. Idílios praianos. Estâncias de veraneio. Horas descomplicadas de amor”.
“Bom, resta sempre a possibilidade da mentira, da invenção”.
“Idealmente, sim”.
“Não me compreenda mal. Não gosto que me mintam.”
“Eu tampouco”.
 “Tomo tudo ao pé da letra. Dizem-me as coisas mais delirantes. Não apuro. Não questiono. Recebo notícias de fraudes sem grande surpresa. Parece-me, por assim dizer, parte da coisa toda”.
“Boa solução. Assim caminha-se pela vida sem tantos esbarrões”.

           
           
                       
           






Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.
            

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Mata-Borrão

D. Zulmira

Puxam-nas para si, e as linhas, de todas as cores, escorregam do tecto para serem lambidas pelas muitas raparigas que, depois, as enfiam nas agulhas. Elas riem risos pequeninos e curtos enquanto espalham os tecidos nos joelhos. Chupam os dedos que se vão picando, ajustam dedais. O ar é uma serpente de suor ácido que aperta a garganta.

O marido de Dona Zulmira, sentado a uma mesa, lê o jornal, vigia o andamento da obra, cose os olhos nas pernas das aprendizas, não gosta dos passos de sua mulher, vinda do andar de baixo.
Não tinha eu ainda lido Jorge Amado nem visto Bergman. Talvez nem ainda soubesse ler. Gostava de subir aquelas escadas de madeira e prantava-me a olhar.

A senhora dona Zulmira era modista, portanto, muito longe da costureira de obra vulgar e, mais longe ainda, da costureira que ia a casa.

Tinha atelier, o seu ateliére, aliás.

Onde se ouve palavras boas de cantar, entretela e tafetá. Refrões rimados de cós e ilhós. Anatomias cândidas com pinças de peito. Remates minuciosos debruados a cetim. Resoluções corajosas nos cortes a toda a volta. Disfarces pueris com drapeados. Mágoas acolchoadas.

Na saleta das provas, as revistas de muito e bom papel são estrangeiras e chamam-se figurino. Manuseadas. D. Zulmira cospe ao de leve no indicador à procura de redingotes, pregas, evasés. Aconselha, em tom de segredo de Estado, os tweeds, as sedas, os moer, os veludos, as flanelas de lã. No pulso, a jóia cravejada de alfinetes incrustados em esponja cor de peito de rola. Um pouco medonha, aquela pulseira.

E tantas as provas. Tecidos riscados a giz preso a um louva-a-deus gigante que é compasso de madeira. Uma arquitecta, ajoelhada, a Dona Zulmira. Risca o pano em escrita cuneiforme.

Depois havia que esperar pelos botões. Vinham de Lisboa, para onde iam a forrar.  

Maria João Forte é socióloga

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Tuiuiú

Já vivi mais de um quarto dos meus cem anos de vida. De novo um verão que começa frio, de novo duas noites sem dormir a cada sete. E eu arrumo a casa, eu limpo a casa, visto minhas meias de seda e levo o lixo para fora: copos e copos de vidro com luz dentro deles, almofadas, âmbar, tapetes aquecidos no Sol. 
Os dias importantes fogem de mim e me deixam aqui com estes, gelatina quente. Sento sozinha no chão da sala, com os pés na sacada, fumando as bitucas de cigarro que as visitas deixaram. Eu nem ao menos sou fumante, mas gosto de poder parecer uma pessoa bem triste. Visto roupas enormes que prometi guardar, e passo calor dentro delas. Sempre tantas roupas por dobrar – uma vez li que na Inglaterra do século 18, uma mulher gastava 42 dias inteiros por ano lavando, secando e remendando roupas, mil e oito horas no total. As estrelas, os céus, a terra, os elementos, plantas, repolhos, animais, insetos, bezerros, louça por lavar. Sempre tanto trabalho.
Meu aniversário foi há menos de um mês, gostaria de ter ganhado um animal de grande porte. Um que me impedisse de sair de casa, que me fizesse perder tudo o que pode haver de importante em qualquer dia que seja, tudo o que acontece no mundo. Ficaríamos aqui dentro, eu e meu animal gigante, compartilhando calor.
***
Levanto e vou ao mercado buscar coisas para o almoço, já tarde. Quando saio do caixa, vejo que começou a chover. Eu também já tive um guarda-chuva um dia, mas isso faz tempo, e além disso, tanto faz. Saio andando com as sacolas numa mão, e com a outra abro o pacote de bolachas de água e sal. Vou por um caminho mais longo porque é menos desolador tomar chuva em ruazinhas do que numa avenida. Comendo bolacha de água e sal, bolacha de chuva. Escuto o vendedor de laranjas no megafone repetindo “laranja é natural”.

Ontem fui com minha amiga Milena e seu porquinho da índia no veterinário. No caminho, ela me contou de quando era criança e ia cuidar da horta com os irmãos. Que ela virava um pé de alface. Ficava parada, de cócoras, esperando, e alguém tinha que vir regá-la. Pouco tempo depois, todos aceitaram que ela era um cachorro, e comia no chão, deitada sobre as quatro patas, o rosto dentro do prato. No final de semana ouvi seu irmão dizendo – mas não era comigo que ele falava – que o homem ainda não entendeu seu lugar na natureza. Estava de costas para ele e fiquei satisfeita, continuei regando.


Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Aborrecimento, quase poesia





XIV: A Tirania do Acontecimento

           Tirania do Acontecimento

            Excetuo nascer. Isto foi um incidente que sobreveio a meus pais, não a mim. A mim, se me aconteceram três coisas nesta vida, foi muito.
            A primeira, penso, foi o postal das costas da Esfinge.
            The Back of the Sphinx, lê-se a um canto. E também a data, que já não me lembro. Anos 1930, talvez.
            Quando caiu em minhas mãos, pensei: “Isto nunca me ocorreu”.
Nunca me ocorrera que a Esfinge pudesse ter costas, pudesse ter uma traseira. Nunca me ocorrera que a Esfinge fosse, de fato, uma coisa com lados, com dimensão. Não me ocorrera pensar na Esfinge como algo posto no mundo por mãos de homem.
            Mãos, também eu as tenho.
Eram inseparáveis. Enigma e Esfinge. Tanto que se fundiam para mim numa coisa só, não exatamente material.
Penso que o mistério ganhava. Que havia ali um comércio escuso de representações e que o mistério ganhava.
Mas agora há essa imagem. Um documento. Ela traz consigo uma separação de qualquer espécie. A imagem se coloca como uma cunha entre estas duas coisas, forçando-me a considerá-las insuladamente.
Lembrei de uma anedota contada por um amigo. Sua avó, quando soube que uma filha sua pretendia batizar de André o bebê que esperava, esbravejou: “Neto meu não vai se chamar André, é nome de palhaço”.
Perguntaram-lhe então por que achava isso.
Ela contou que, certa vez, em menina, fora a um circo e vira apresentar-se um palhaço de nome André. E portanto, André era nome de palhaço.
Agora, entre a Esfinge e o que tenho por mistério, há um postal amarelado de anos.
Desde que o tenho, não sou mais a mesma pessoa.
Telefono para amigos depois do jantar. Aflijo-os.
“Adventício, é você?”
“Sei que uma mudança foi posta em marcha, sei que estou me transformando, mas não sei em quê”.

A segunda coisa foi aquele homem parado à saída do metrô. Jamais saberemos – aleluia – se tinha os papéis em dia. Impunha-se ao sobe-e-desce somente por força de imobilidade. Cabal. Perfeita.
Pormenorizá-lo seria tão ingrato quanto descrever a traseira da Esfinge. É possível que trajasse paletó, gravata. Panos cinzentos sem desmentir o dia. É possível que tivesse um relógio. É possível que tivesse rosto longo e equino, queixo afilado, e pelo queixo, uma aspereza de fim de expediente.
Sim, tudo isto é possível. O horário de verão, a pressa dos circunstantes, a procura de abrigo. Bastava-me, no entanto, saber que estava lá, que existia, que se contava entre as coisas do mundo, como de resto ainda me basta.
Talvez não me acreditem. Seus gestos não eram mesmo credíveis. Seu gesto, posto melhor, que era um só: a boca aberta, fazendo como se fosse gritar.
Não era convulsivo. O grito não movia o pescoço, parecia estar preso mais abaixo, no tórax, ali onde a voz não é nem mesmo uma sombra. Embora estivesse a metros de distância, sou capaz de jurar que não emitia sequer um balbucio. Ele tinha, portanto, dois fascínios: a imobilidade e o grito que não vinha.
Fixando-o, senti tremer o maxilar.
Passavam por ele, pelo maxilar, figuras igualmente incaracterísticas. Algumas o metrô acolhia, outras devolvia para a tarde. Uma destas tardes abafadas de verão com todos os bairros contraídos.
Nestes momentos, é nos corpos que as tempestades vão se armar. Sei disso pois à época andava assistindo a muitos documentários sobre relâmpagos e demais fenômenos atmosféricos. Ajudavam-me a pegar no sono.  
Conhecemos, por alguns instantes, o peso das nuvens que breve descarregarão sobre a cidade. Conhecemos as torres escuras que se arrastam sobre as torres. Conhecemos as torres intimamente, porque é nos corpos que elas se arrastam.
Pensei de mim para mim que aquele homem desabava, que já não podia com as aberturas, que as gotas de chuva deviam atingir sua testa como murros. Foi nesta altura que abri o guarda-chuva.  

A terceira coisa foi também homem, mas era outro. Veio me pedir um cigarro no meio de uma praça.
Quanto a isto, meu código de conduta sempre foi o mesmo – dar tudo que me pedem, sem desmentir o dia. Palavra que teria mesmo ido com ele, se me tivesse pedido para acompanhá-lo. Teria ido com ele sem questionamentos de qualquer espécie. Porque era um homem bastante alto. Tão alto que, ao falar, vergava-se um pouco sobre mim.
Estas coisas, se não nos acautelamos, confundem-se facilmente com o amor.
Pensei então, enquanto o rapaz me fazia sombra, que não tinha clareza alguma no tocante às mais simples questões; que não sabia – honestamente – se era do meu interesse, por exemplo, morrer ou seguir vivendo. Vivia, morria, é claro, no passo de todos. Mas os desejos, as vontades, estes escapavam sempre. Já não sabia como era possível estar no mundo sem clareza. Já não sabia como pudera suportá-lo esses anos todos.
Pensei, portanto, em coisas claras. Inscrições em monumentos, cinejornais, dicionários, placas de trânsito, enciclopédias, cardápios, circulares afixadas às paredes de elevadores, guias de toda espécie. Lembrei de um manual de anatomia que vira certa vez num sebo, que não comprara então porque me percebia – como, como? – entendido de corpos.
Pensei em coisas que significavam claramente. Pensei que deveria voltar o quanto antes àquele sebo e comprar o tal manual de anatomia – Anatomia para Artistas, chamava-se –, livro antigo, volumoso, respeitável sob todos os aspectos. Pensei que era tempo de me reiniciar nos corpos, que não os conhecia absolutamente, que os conhecia apenas por pontadas, por pruridos, que isto era um equívoco terrível.
Pensei como se olhasse para cima, olhei. O sujeito levava a chama do isqueiro ao cigarro que eu acabara de lhe passar. Havia na praça uma igreja e sob o olho direito do sujeito uma lágrima tatuada, coisa que me comoveu um bocado. Foi reparar que estava tocado que o homem se voltou e foi ter com mais alguns homens acocorados diante da igreja, todos de gorro.
Naquele momento, não me separei de mim mesmo. Talvez não me acreditem, afinal, teria sido este o curso natural dos acontecimentos. Não segui nem a ele nem a mim mesmo. Permaneci por alguns instantes lá postado, no centro da praça.
Não era exatamente o centro da praça. Mas sempre nos julgamos no centro de qualquer coisa.
Calculei quanto tempo tinha até o fechamento das livrarias. Não era muito e a amiga por quem esperava na praça despontava já por detrás de um gigantesco monumento à República. Contei o ocorrido. Ela me informou que este tipo de tatuagem geralmente pretende indicar ex-presidiários.
“Ah”, aflautei-lhe então.
Eu pensava numa esfinge com a boca aberta. Eu pensava numa esfinge coçando os quartos. 







Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados.