segunda-feira, 31 de julho de 2017

Aborrecimento, quase poesia

VIII. Bem-vindo de volta
 
 
 
 
             A verdade é que sempre gostei muito de estórias deste tipo.

            Estórias de pessoas que começam de novo. Estórias de pessoas que vão a zero, vão partejar a si próprias em outro sítio, dão cabo de si para ressurgir – outro nome, outra mitologia, outra cronologia – muito tempo depois, em ponto improvável do mapa.

            A verdade é que sempre gostei de estórias de pessoas que vão nascer longe dos pais. Longe de sua nascença.

            Revejo-me tratando da transferência no escritório, respondendo – jocosamente, é claro – aos amigos que me perguntavam o que raios pretendia fazer lá que já era tempo de começar a aprender a morrer.

            É possível que eu não saiba muito bem a diferença entre nascer e morrer.

            Revejo-me circulando anúncios de imóveis numa panificadora de esquina, os pés latejando de intermináveis caminhadas, feliz.

            Vejo-me assinando livros de visitas com cognomes absurdos, como Bosco Fosco.

            Revejo-me pensando em C..., antes da mudança. Revejo-me figurando C... como se se tratasse de Moscou, como se eu fosse uma das três irmãs de Tchekov.

            Neste ponto, pelo menos, a razão esteve comigo. Li em algum lugar que o sol dá as caras nesta cidade com tanta parcimônia quanto em Moscou.

            É claro, escrevê-lo num dia gloriosamente soalheiro – e isto em pleno inverno – como o de hoje pode parecer um contrassenso. Não é. Aprendemos, com o inevitável enraizamento, a não nos habituar. Lenta e inequivocamente. Sabemos do imenso toldo cinza de setembro, a verdade que desce sobre nós.

            Se não setembro, outubro. Se não outubro, novembro.

            Pareceu-me, então, ponto improvável do mapa. Um recanto improvável, improvavelmente pacato, suficientemente falto de acontecimentos para que acontecesse alguém. Ao sul de um mundo em condição de fim.

            Levei poucos meses para descobrir que o problema de C... era justamente o ser por demais   provável.

            Levei poucos meses para descobrir que em C... o fim já havia chegado.

            É claro, de quando em quando depara-se algum café barateiro com mesas do lado de fora, algum desconhecido nos sorri no ponto de ônibus sem malícia verificável.

            Mas tudo isto tem lugar num fim.

            É difícil explicar. Levarei muito tempo tentando explicar. Penso que há tempos não faço outra coisa.

            Aqui temos, por vezes, a nítida impressão de que o mundo já acabou. Desconfiamos que a moça que pôs os óculos de armação vermelha para enxergar melhor o preço dos saponáceos no supermercado esteja, na realidade, morta. Que a pálida adolescente que nos pergunta se passaremos as compras no débito ou no crédito – lábios recurvos, moletom em que se lê a frase All I do is win – esteja, na realidade, morta. Que o tipo leitoso da livraria na frente de casa, com sua inestimável coleção de antigos postais da cidade, esteja, na realidade, morto.

            É possível que eu não saiba muito bem a diferença entre nascer e morrer.

            A mim me surpreende imenso que as pessoas continuem falando de C... como se ela de fato existisse.

            C... é provável como um pai.

            Talvez as mães sejam ainda mais prováveis que os pais.

            Bem vistas as coisas, existem no mundo pais imensamente improváveis.

            Mas C... é provável como um pai.

            Aqui, onde fantasiei em algum momento reescrever minha circunstância, dar-lhe certo lustro, certo polimento, a vida transcorre como que sob a mão perenemente espalmada de um vetusto paterfamilias: pouca imaginativa, amante dos protocolos, descrente da confusão humana, obstinado em construir o reino dos céus com retroescavadeiras operadas por imigrantes mantidos em situação de semiescravidão.

            Aqui, onde fantasiei em algum momento colidir com minha própria voz.

            Aqui, onde ela se tornou erma, cava, e nada de muito preciso veio tomar o seu lugar.

            Sempre gostei de personagens que se assenhoram de outros, existentes ou não. Personagens que abocanham outros ou que são por outrem abocanhados. Sempre gostei de desidentificações, imposturas, possessões, qualquer aclaração de como é vácuo e atacável tudo quanto sustenta nossos monumentos a nós mesmos.

            Sim, sempre me senti irresistivelmente atraído a este tipo de narrativa. A ponto de acreditar, por vezes, que a minha própria estória se inscreve nesta categoria.

            Não, não é bem o caso.

           

           


"Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, roteirista e tradutor. Nasceu em 1985, no Rio de Janeiro. Vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os seguintes livros: synchronoscopio, Ramerrão e Os
Ilhados
".


           

           

           

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